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ANÍBAL DE ALMEIDA FERNANDES  
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TRATADO do ESNOBISMO no BRASIL

Aníbal de Almeida Fernandes, Setembro, 2006.

Premissa: O esnobismo sempre depende da pessoa que o expressa e essa pessoa procura reforçar os valores que acha válidos para caracterizar a classe social a que pertence, ou seja, não há um esnobismo absoluto ele é sempre relativo e o esnobismo só funciona para os grupos sociais que dêem valor aos mesmos valores, como exemplo, não adianta falar sobre a nobreza brasileira com os japoneses.

No Brasil ao longo dos séculos tivemos os seguintes pólos de esnobismo, (sempre ligados ao apogeu econômico da região):

séc. XVII os usineiros de açúcar do Nordeste que eram riquíssimos por serem os donos do açúcar do mundo inteiro e viviam em estreito contato com Portugal.

séc. XVIII os mineiros de ouro de Minas Gerais que se contavam aos milhares, com muitos imigrantes de Portugal procurando fazer a América e, nesta época, Ouro Preto tinha 120.000 hab. e um padrão sociocultural de grande cidade européia, cuja efervescência intelectual e financeira levou ao levante de Tiradentes.

séc. XIX houve vários pólos, o cacau na Bahia, o algodão no Maranhão tornando Alcântara a 4ª cidade mais rica do país, a borracha no Amazonas com o seu teatro monumental e, finalmente, o café no Rio de Janeiro, com o apogeu nos Barões de Café de Vassouras/Valença que, junto com a Corte Imperial muito próxima, se constitui na mais sofisticada e requintada experiência social em todo o esnobismo do Brasil.

séc. XX em São Paulo temos os fazendeiros de café já mesclados com os estrangeiros até 1929 e depois os grandes industriais/empresários estrangeiros e urbanos.

Vamos identificar/analisar três épocas e seu esnobismo característico:

4Colônia: há o esnobismo de antiguidade uma particularidade específica do paulista, que é uma conseqüência direta dos estudos genealógicos deixados por Pedro Taques de Almeida Paes Leme (1714-1777), que é um personagem muito controvertido, uma vez que escrevia por dinheiro para famílias que queriam registrar seu passado, foi preso por desfalque dos cofres públicos e morre sem ser perdoado pelo rei de Portugal, ele baseia seus trabalhos em documentos de 1500 e 1600 que depois foram perdidos!!!! não podendo ser comprovados Depois tivemos o Silva Leme que continua o trabalho do Pedro Taques e é outra grande referencia para o patriciado paulista. A antiguidade paulista é toda baseada na descendência de João Ramalho, que teria vivido 99 anos????? numa época onde o europeu vivendo nos trópicos que conseguisse chegar aos 40 anos já era considerado um fenômeno. Em 1553 o padre Manoel da Nóbrega dizia que a vida de Ramalho era uma "petra scandali", pois tem muitas mulheres e ele e seus filhos andam com as irmãs (de suas esposas) e tem filhos delas. Vão à guerra com os índios e seus gestos são de índios e assim vivem, andando nus como os mesmos índios. (Eduardo Bueno). Resumo: Esse esnobismo pela antiguidade é facilmente explicável por ser a alternativa viável para o paulista se destacar uma vez que São Paulo, cuja única riqueza era o tráfico de escravos índios, pela situação geográfica foi na história dos 3 séculos iniciais do país uma vila miserável que sobrevivia à margem da civilização, totalmente isolada por uma serra quase intransponível e povoada por uma gente, que é descrita tecnicamente pelo Capitão General (Morgado de Mateus) a El Rey de Portugal: "é a pior gente do mundo: relaxada, indolente, orgulhosa, selvagem e estúpida (Alcântara Machado)” no fim do séc. XVIII (ou seja, na mesma época do Pedro Taques).

4Império: há o esnobismo dos títulos de nobreza dos fluminenses, cujas grandes famílias disputam entre si quantos títulos de nobreza cada uma delas tinha e qual sede de fazenda era mais espetacular/luxuosa, foi uma sociedade extremamente requintada graças à proximidade da corte e à facilidade de transporte dos bens de consumo e à fabulosa riqueza do café de 1830 a 1875. Resumo: Esse esnobismo é conseqüência do choque de internacionalização da sociedade brasileira graças à vinda da Corte Portuguesa (no inicio) e a movimentação socioeconômica que o Império promoveu depois no país, os hábitos de mesa, de conversa, de música, enfim o savoir faire social das famílias fluminenses supera de maneira exemplar o que havia em todo o Brasil na mesma época e até hoje se distingue na herança cultural dos fluminenses. Oliveira Viana assim descreve o patriciado fluminense: Não tinha esse, o fluminense, nem o orgulho do paulista, nem o democratismo do mineiro. Era mais fino, mais polido, mais socialmente culto pela proximidade, convívio e hegemonia da Corte, cuja ação o absorve. O polimento urbano lhe corrigiu a rusticidade e pela finura, pelo senso do meio-termo, acabou por desempenhar, no Sul, o papel dos atenienses da política e das letras.

4República: há o esnobismo do dinheiro de São Paulo, pois muda o eixo do poder socioeconômico do Rio para São Paulo, agora com a participação dos estrangeiros (principalmente italianos e árabes) que mesclam à sociedade brasileira um tempero novo que depois vem adicionar o japonês. Resumo: Esse esnobismo é conseqüência da multiplicidade das origens raciais que formam um novo tecido social amplo e complexo que até 1929 mantém uma certa similitude com os padrões sociais/agrários fluminenses, mas com o crash do café em 29 e o tremendo empobrecimento que segue, muda definitivamente o padrão socioeconômico e o poder passa das grandes famílias agrárias brasileiras para os industriais/empresários urbanos majoritariamente estrangeiros onde o que vale, e diferencia as famílias, é só o dinheiro que é a única linguajem comum compreendida por todos e numa tal escala de rapidez e voracidade que faz o ex-governador Paulo Maluf (filho de imigrantes) em 2006 declarar, indignado para um jornal, que uma gente que não era nada antes!!!!!!!!, agora é muito mais rica que ele???? E o ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira ser cultuado como um mecenas da mais alta qualidade por muita gente que se diz elite??????.

Adendas:

Ninguém escreveu tão profundamente sobre o esnobismo social como Marcel Proust no seu monumental romance Em Busca do Tempo Perdido, que é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que tenha um mínimo de interesse em entender/analisar as transformações sociais e as movimentações que os vários extratos sociais fazem, continuamente, no tecido social de qualquer país, ao longo de todas as épocas, nesse romance encontramos o esnobismo medieval do príncipe de Guermantes, o mundano do duque de Guermantes e o irresponsável do barão de Charlus.

 

Outros autores que abordam as transformações sociais e o esnobismo com pertinência e objetividade:

O Leopardo de Tomaso de Lampedusa.

O Vermelho e o Negro de Stendhal.

Bibliografia usada para estruturar este trabalho:

Alcântara Machado (AM), José de - Vida e Morte de Bandeirante, São Paulo, Martins, 1972., pgs: 3, 8, 25, 26, 29, 32, 37, 43, 49, 54, 60, 91, 146, 160, 172, 180, 181 e 185.

Leite de Barros (GLB), Gilberto. A Cidade e o Planalto, São Paulo, Martins, 1967, 1º Tomo pgs: 9, 10, 11, 12, 16, 30, 35, 36, 38, 39, 40, 53, 54, 57, 92, 93, 94, 123, 124, 164, 168, 169, 173, 180 e 186.

Omegna (NO), Nelson. A Cidade Colonial, Brasília, Ebrara, 1971, pgs: 57, 59, 60, 119, 123, 124, 125, 135, 136, 137, 254, 255, 259, 261 e 264;

Bueno (EB), Eduardo. Naufrágios, Traficantes e Degredados, Rio de Janeiro, Objetiva, 1998, pgs: 74, 173, 177, 178, 179 e 180.

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