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ANÍBAL DE ALMEIDA FERNANDES  
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CURIOSIDADES TURÍSTICAS

Impressões de um jardim-casa chinês

Ainda ontem, fôra o grande impacto da viagem à China, Shanghai, 10 milhões de bicicletas, 14 milhões de pessoas das quais, 30% é classe média com 3.500 US$ de renda mensal, e a Millenium que é a melhor, mais requintada, e mais barata, loja de toda China. Uma cidade belíssima com prédios enormes, modernos, que brilham à noite como em Hong Kong, mostrando construções pesadíssimas feitas pelos russos no passeio pelo rio, num barco com chineses de todos os cantos da China que vem a Shanghai para conhecer o futuro da China que daqui há uns 50 anos será a grande potência hegemônica mundial, num repeteco do seu Império de 5.000 anos e que a Pearl Tower, com seu restaurante giratório a quase 400 m. de altura, nos faz antever, aonde vi a mais linda chinesa da etnia Han, alta, clara, esguia e bela como uma flor de Lotus e que nos mostra, com um sorriso encantador, uma paisagem lindíssima de tirar o fôlego não só pela beleza/pujança/imponência/modernidade/qualidade, como, também, pelo inesperado pois ninguém quando você vai à China, explica o que é Shanghai, o máximo que dizem é que é como São Paulo, e quando se a vê, é um ficar atônito completo com sua força esplendorosa, sua vibração energética, seu potencial de modernidade que fará acontecer o desabrochar da Potência Chinesa.

Vamos para Suzhou, com seu portão Pan que há 2.000 anos controlava o acesso à cidade, navegamos no canal que vai até Beijing (Pequim) com 1.794 km. de extensão e por onde, também, navegou Marco Polo. E, nesta cidade, acontece o encantamento ao chegarmos à frente da casa do rico mercador de seda que era administrador do Imperador Chinês, o Senhor Humble, que é circundada por altos muros que, no acesso, recuam formando um canteiro de magníficos lótus entre 2 portões que dão entrada a um paraíso pois, por um deles, entramos no mundo das famílias e casas descritas por Pearl Buck que fascinava e deixava uma confusão em nosso imaginário ao se tentar reproduzir o cenário físico da trama pois era um sem fim de casas e jardins que, agora, se apreende em sua totalidade e mistério fascinante, e se compreende pois, a casa chinesa não é uma casa na acepção ocidental mas sim, um jardim luxuriante com uma série de cômodos dispersos entre caminhos serpenteantes, com canais de água corrente, cheios de carpas coloridíssimas, com graciosas pontinhas que dão acesso a ilhas, algumas com pedras ornamentais com altura muito maior que um homem, e lagos cheios de lótus de todas as cores, que dão perspectivas fascinantes e variadas; tudo isso interligado por corredores de madeira decoradíssimos, e cobertos para evitar a chuva, que ligam esses vários cômodos hierarquicamente dispostos nas acomodações do senhor, das esposas com sua seqüência de importância, do filho mais velho, dos outros filhos, das salas de estar, das salas de reunião, dos locais de culto, da cozinha centralizada para servir todas as ramificações da família que tem, cada uma, seu local para refeições, das acomodações dos serviçais, que eram às dezenas, pois o chinês rico vivia em plena e total ociosidade, muitas vezes corrompido pelo ópio, trazido da India pelos ingleses e que chega no fim do século XIX a consumir o produto interno do país, que tudo gasta, para comprar a bola negra que é fumada na languidez doentia das salas que dão vista para esses jardins deslumbrantes que, em outras escalas, compunham a casa de todo chinês rico, nobre ou comerciante, como se fosse um estúdio para filmagem onde os vários cenários estão dispostos em um único jardim. É o que se ve, também, no Hutong que é o bairro que continua a Cidade Proibida em Beijing, e era a morada das famílias importantes do Império Chinês, como um Marais em Paris, lá vemos a casa do príncipe Tong (Dinastia Ming) tão deslumbrante como aquela do Senhor Humble e que adiciona outra emoção pois sabe-se que ainda vivem, nas cercanias, os descendentes remanescentes da aristocracia chinesa porém não se pode vê-los, mesmo que se peça ao guia que desconversa e disfarça o desconforto com a situação, pois esse Hutong que era o mais requintado bairro de Beijing, durante as dinastias Yuan (1280-1367 d.C.), Ming (1368-1644) e Ch’ing (1644-1911), e foi construído conforme as regras da etiqueta da dinastia Chou (1027-227 a.C.) que é a época de Confúcio, que criou um rígido protocolo social, com rígidas regras feudais de atuação entre os vários segmentos sociais, que só seria incorporado na civilização européia 1.000 anos depois, na Idade Média está, agora, tentando resistir bravamente à modernidade já que é demolido para dar espaço aos prédios moderníssimos que se vêem em qualquer cidade ocidental e esse histórico local, já deteriorado pela revolução, que numa casa de uma única família nobre instalou mais de 50 a 100 famílias, transformando num pardieiro o que era uma herança cultural única no mundo pois, esse conceito de morar-se num jardim, fragmentando a casa em seus componentes individuais, com uma circulação protegida, que permite uma interação com a natureza que não se encontra em nenhuma outra cultura vai desaparecer !!!!!!!!!.

Este conceito de morar-se num jardim, atinge o paroxismo máximo de realização no Palácio de Verão construído pela dinastia Ch’ing, nas cercanias de Pequim numa área de 290 hectares dos quais 200 são de um lago, circundado pelas construções, sempre dispersas e interligadas pelos corredores cobertos, numa concepção arquitetônica do padre Castiglione (1688-1766) e do padre Benoit para os fantásticos jardins que contém fontes inspiradas em Versalhes. Neste palácio, vivia a Imperatriz CIXI que governou a China por 47 anos, e gastava como um Luís XIV oriental, no passadio requintadíssimo da corte (com refeições que tinham mais de 100 pratos), algo em torno de 10 milhões de US$ anuais, o que acabou com o tesouro chinês e não deu chance a seu neto, Pu-Yi nascido em 1906, de se manter no Trono Celestial que é eliminado pela revolução de Mao Tse Tung acabando com a seqüência milenar dos Imperadores/Deuses.

Anibal de Almeida Fernandes - Março de 2003.

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