JOÃO RAMALHO E A FORMAÇÃO DE SÃO PAULO NOS SÉCULOS XVI, XVII E XVIII

 

 

João Ramalho numa pintura imaginária de J.W.Rodrigues

Por Aníbal de Almeida Fernandes, Janeiro, 2008.*

Lendo Gilberto Leite de Barros (G.L.B.), Alcântara Machado (A.M.), Nelson Omegna (N.O.), Eduardo Bueno (E.B.), Cândido Mendes (C.M.), Carlos da Silveira (C.S.) e Francisco de Assis Carvalho Franco (C.F.) e, apenas registrando o que informam, se obtém uma realidade muitíssimo diferente do conceito habitualmente difundido que "empresta à sociedade paulista dos dois primeiros séculos o luzimento e o donaire de um salão de Versalhes com homens muito grossos de haveres e muito finos de maneiras, opulentos e cultos, vivendo a lei da nobreza numa atmosfera de elegância e fausto" como descreve Oliveira Viana a São Paulo dos séculos XVI, XVII e XVIII. Para Alcântara Machado, " a fantasia delirante de um deus seria capaz desse disparate esplêndido". Faremos uma resenha de todos esses livros para conduzir o raciocínio de quem tem bom senso, é atilado e conciso, para aprender a verdade histórica.

1º)- O que era Piratininga, depois São Paulo, não passa de um lugarejo humilde habitado por um Bandeirante, pobre e analfabeto e grosseiro de modos e de haveres parcos, vivendo quase na indigência (A.M.). Em 1606 tinha 190 moradores (G.L.B.) e não passa por longos anos, de miserável aldeia (A.M.), pois não interessava à Coroa Portuguesa a expansão da agricultura em regiões longínquas do litoral. D. João III dificultou a entrada no campo, reservando-o para o tempo futuro quando estivesse cheia e bem cultivada a terra vizinha aos portos, nos dois primeiros séculos. (G.L.B.). Com a corrida para as minas em 1748 a capitania de São Paulo acaba e entra em brutal decadência vindo a ser restaurada em 1765, graças ao açúcar e às tropas de mulas. A única riqueza de São Paulo era o tráfico de escravos índios, nos 3 séculos iniciais do país, pois era uma vila miserável que sobrevivia à margem da civilização, totalmente isolada pela situação geográfica por conta de uma serra quase intransponível e em 1792 tem o acesso melhorado com a construção da calçada de Lorena alargada e pavimentada assim descrita: uma ladeira espaçosa que permite subir com pouca fatiga e se descer com segurança (Frei Gaspar), porém era interrompida no trecho de Cubatão até Santos que era feito por canoas até 1827.

2º)-O tipo de população de São Paulo:

Um núcleo de cabos de sertão, gente sem preparo e aptidão, gente predatória e instável e despovoadora. (G.L.B);

Os paulistas aceitariam até as mulheres erradas de Portugal, ou seja, as putas portuguesas, tal a carência de mulheres brancas (A.M. citando carta do Padre Manoel da Nóbrega);

São homens do campo, mercadores de recursos limitados, artífices aventureiros de toda a casta, seduzidos pelas possibilidades com que lhes acena o continente novo (A.M.);

Mestiços de negros e índios com brancos, no geral, aventureiros assassinos (Herrera, cronista uruguaio do século XVII);

O paulista salientou-se como traficante de escravos índios, entre 1628 e 1630, está provado que os paulistas roubaram e venderam como escravos 60.000 índios (G.L.B.);

Era uma raça descendente de condenados deportados dos diferentes povos da Europa e de mulheres indígenas (G.L.B.);

No fim do séc. XVIII o Capitão-General (Morgado de Mateus, 1765-1775) informa El Rey sobre os paulistas: "é a pior gente do mundo: relaxada, indolente, orgulhosa, selvagem e estúpida (A.M.).

Outro exemplo típico é Santo André da Borda do Campo - Visto como um verdadeiro covil de ladrões por Ulric Schimitt (N.O.).

3º)-A Pretensão à nobreza: A nobreza paulista se entrelaça na descendência de João Ramalho, que teria vivido 99 anos??? numa época onde o europeu vivendo nos trópicos que conseguisse chegar aos 40 anos era considerado um fenômeno por conta das febres, malária, bouba, opilação, tétano e disenterias que dizimava o estrangeiro. Porem esta nobreza que é descrita por Pedro Taques de Almeida Paes Leme (1714-1777) que é um personagem muito controvertido, uma vez que escrevia por dinheiro para famílias que queriam registrar seu passado de glória, foi preso por desfalque dos cofres públicos e morre sem ser perdoado pelo rei de Portugal, se baseia em documentos de 1500 e 1600 que depois foram perdidos!!!! não podendo ser comprovados???? Pedro Taques foi responsável, em 1770, por grave desfalque nas contas publicas que gerenciava como tesoureiro-mor da Bula da Cruzada das capitanias de São Paulo, Goiaz e Mato Grosso. Em 1774 vai para Lisboa tentar a clemência do Rei, porem não é recebido e volta doente (paralisia) morrendo sem perdão e com o nome desonrado e na mais extrema miséria a 3/3/1777. Silva Leme (1852-1919), em sua Nobiliarquia Paulistana (1901-1905), 138 anos depois, informava que a maior parte das fontes pesquisadas por Taques haviam sido perdidas ou se deterioraram irremediavelmente, ou seja, não há possibilidade de nenhuma análise técnica séria, hoje em dia, para a confirmação dessas informações.

 

O português fundador de nossas cidades era marinheiro, soldado, mercador, padre, judeu andejo, homem sem pendor à vida sedentária e, somado ao índio estradeiro, criou o Bandeirante, o minerador, o tropeiro, o comboeiro, o carreteiro e o mascate (N.O.).

(sic) "Sua Magestade podia se valer dos homens de São Paulo, fazendo-lhes honras e mercês, porque são homens capazes de penetrar todos os sertões e não lhes é molesto andarem pelos sertões, anos e anos", é sabido que em Portugal escasseava a população no séc. XVI (e na 1ª metade do séc. XVI, parte ponderável da população de Lisboa era de escravos negros, por conta das perdas com expedições marítimas)(G.L.B.).

As enumerações de Pedro Taques e Silva Leme, a respeito dos títulos e atributos de fidalguia são bastante precários, pois numerosos elementos de classes inferiores, em pagamento de serviços prestados, foram elevados a cavaleiros, porém, apesar disso, no dizer de Fernão Lopes, fossem "filhos de homens de baixa condição, que não cumpre dizer" (G.L.B.).

Alfredo Ellis Jr. informa: Se é verdade que um ou outro povoador procedia por algum ramo de sua complicada ascendência (notar o descrédito) de uma genealogia fidalga do reino, não sem passar, porém por muitas bastardias e através de muitos cruzamentos com elementos afro-asiáticos e árabes-bérberes, e ia chegar aos primitivos heróis peninsulares, onde esses poderiam ser contados nos dedos, tão resumido o seu número!(G.L.B.);

Pero Leme (os irmãos Leme eram facínoras desalmados, conforme Paulo Setúbal, baseado em documentos da época) que Pedro Taques diz ser fidalgo muito antigo nos livros de El Rey era um indigente e seus haveres são: um colchão, um travesseiro, duas redes, uma caixa preta, em espelho, um jarro de vidro, uma cadeira de espaldar cuja metade é de sua filha Leonor Leme.(A.M. com ironia e total descrédito da Nobiliarquia Paulistana, pergunta: que jornaleiro se contentaria, na atualidade, com esse punhado de trastes e utensílios domésticos?);

Eduardo Bueno pondera que: Homem tão influente e rico, dificilmente iria se expor aos perigos do mar e às agruras de uma viagem oceânica, quando se refere ao judeu Fernando de Noronha, (que foi arrendatário do Brasil entre 1502 e 1505, quando devastou as florestas do litoral na captura do pau Brasil em árvores que chegavam a 30 m.) e pode ser generalizado para outros ricos e influentes do reino e, principalmente, fidalgos de verdade!

Sobre o primeiro Bueno, Carvalho Franco, diz que era um carpinteiro da armada de Valdez, contratado num local chamado Ribeira e, no entanto, fizeram deste Bartolomeu Bueno da Ribeira um nobre de Sevilha, e o Bartolomeu Bueno que, quase foi Rei, era na verdade um fabricante de chapéus, analfabeto, que assinava com uma cruz ou X como queiram (AGB, Ano VI pg. 55 e 56).

Dos 400 inventários seiscentistas, há apenas 20 que descrevem alguma abastança, daí se conclui quanto se distanciam da realidade os que se fiam cegamente na palavra dos linhagistas, (Pedro Taques+Silva Leme).(A.M.);

Quando nos deixamos guiar pelos documentos dos velhos tempos e aceitamos a designação de nobres dada a certos homens. sentimos que uma certa fantasia foi usada pelos velhos cronistas (Pedro Taques e Silva Leme) ao distribuir aqueles títulos e graças (N.O.);

toda uma série de artifícios manipulada, consciente ou inconscientemente no redoirar a prosápia de muitos conceituados nobres de nossos antigos linhagistas (Pedro Taques e Silva Leme).(N.O.).

4º)-O Morgado de Mateus (1765-1775), chega em Piratininga (São Paulo) em 1765 e então começa a vida administrativa e social a ser organizada em São Paulo, com o povo tomando consciência de si mesmo:

A cidade tinha 392 moradias, com 648 homens e 867 mulheres e a economia era comércio de mulas e cavalos, sendo que os negociantes eram nada mais que caixeiros dos negociantes do Rio, porém, graças a esses tropeiros, a sociedade paulista, posto que pobre, não se apresenta miserável como no século anterior (G.L.B.). Nessa época, Ouro Preto, em Minas Gerais, tinha 120.000 habitantes, e um luxo, riqueza e uma vida cultural de cidade européia.

Trabalhavam os paulistas, de má vontade como notava em 1788 Arouche Rendon que informa que, um lavrador paulista trabalha no ano de dois a três meses por ano. A par disso, antes de iniciar qualquer empresa, bebia, metia-se na caninha. Arouche, cujo depoimento é de grande valia para verificação dos costumes da época, encarecia os malefícios da bastardia desenfreada dos filhos sem pais conhecidos, desprovidos de um juiz de órfãos para tutelá-los. O futuro Marechal apontava os dois males que distraem o povo do trabalho e que arruínam o comércio: o jogo de dados e a dança, sobretudo no sertão.(G.L.B.).

O mal residia no baixo padrão cultural de um povo estabelecido em região excessivamente distante dos demais centros do país, colocada em um planalto, cujo acesso ao mar tornava-se quase impraticável.(G.L.B.); imaginemos a incrível dificuldade para que os bens de consumo subirem a serra nas costas de índios ou no lombo de burros em meio à chuva e aos ataques dos índios inimigos.

Negociando com muares (mulas), o paulista armazenou boa parcela dos recursos com os quais viria a semear lavouras de açúcar e de café. Muitas fortunas de São Paulo originaram-se desse lucrativo intercâmbio comercial (que eram as empresas de transporte da época), iniciado no Setecentismo e continuando ininterruptamente no século XIX, com muitos chefes de grandes famílias paulistas.(G.L.B.); (entre eles o 1o Barão de Iguape, Antonio da Silva Prado, que era comerciante e tropeiro).

5º)-João Ramalho: visto por escritores e cronistas.

O soturno degredado fugitivo ou náufrago João Ramalho tinha, entre muitas concubinas, a principal delas era Bartyra-(E.B.), portanto sem o controle de registros documentais que eram inexistentes na época é difícil definir quais os filhos de Bartyra;

O pirata Ulrich Schimedel em 1553, ao passar por Santo André, achou-a com aspecto de um covil de bandidos e ficou aliviado ao saber que Johanes Reimelie (João Ramalho) não estava , mas no sertão, escravizando índios.(E.B.);

Aliás, o tráfico de escravos que ele inaugurou, fez São Vicente (conhecida como Porto dos Escravos, graças a João Ramalho), e São Paulo as 2 cidades mais importantes do sul do Brasil.(E.B.);

Se João Ramalho infundia temor em homens como esse pirata alemão, é fácil supor o que acharam dele os jesuítas. Em 1553 o padre Manoel da Nóbrega dizia que a vida de Ramalho era uma "petra scandali", pois tem muitas mulheres e ele e seus filhos andam com as irmãs (de suas esposas) e tem filhos delas. Vão à guerra com os índios e seus gestos são de índios e assim vivem, andando nus como os mesmos índios. (Eduardo Bueno). Ele é o patriarca dos mamelucos que gerou uma série de filhos mestiços que mais tarde comporiam as bandeiras paulistas e revelariam violência inigualável na escravização dos indígenas do sertão.(E.B.).

Ele é o primeiro empresário bem sucedido no Brasil, (João Ramalho), pois era tão