José Leite Cordeiro

1914 – 1986

                                          NELLY MARTINS FERREIRA CANDEIAS*

José Pedro Leite Cordeiro nasceu em Campinas, a 14 de julho de 1914, filho do Dr. Linneo Cordeiro e da Sra.  Dulce Hermínia Leite Cordeiro, ambos oriundos de tradicionais famílias bandeirantes. Médico,   biógrafo, genealogista e historiador, realizou seus estudos primários e secundários em Campinas  e na cidade de São Paulo, tendo ingressado na Faculdade de Medicina de São Paulo, em 1932, onde se diplomou em 1937. Aperfeiçoou-se em técnica cirúrgica e cirurgia experimental com o eminente Professor Benedito Montenegro, catedrático dessa Escola.

Em 1939,  casou-se com Dona Maria Isabel Platt de Macedo Soares, filha de José Cássio de Macedo Soares e de Dona Maria do Carmo Platt de Macedo Soares, de quem teve um único filho. Dona Maria Isabel, Bellah, nasceu em São Paulo, no solar de seu tataravô, Barão de Souza Queiroz, local onde hoje se encontra a Biblioteca Mário de Andrade. Formou-se  no Colégio “Des Oiseaux,” em cujas classes obteve numerosas distinções.

Leite Cordeiro teve o privilégio de contar com o convívio cotidiano e com a  amizade  do  Embaixador, Secretário e Ministro de Estado, José Carlos de Macedo Soares,  então Presidente da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que lhe colocou à disposição sua biblioteca brasiliana. Foi lá que  iniciou suas primeiras pesquisas.

Em 5 de junho de 1944, aos 30 anos de idade, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo,  onde atuou  oito anos,   como orador oficial, tendo sido eleito cinco vezes como  presidente. 

Em  23 de março de 1956, tomou posse na Academia Paulista de Letras, onde ocupou a cadeira 19, cujo patrono é o Barão de Piratininga, ocasião em que foi saudado  pelo insigne historiador Aureliano Leite. Foi o oitavo dessa entidade, no período de 1975 a 1978. Membro da Academia Portuguesa de História, em Lisboa,  teve a honra de ocupar uma das dez cadeiras destinadas a brasileiros, entre as 40 cadeiras dessa entidade.

Seus trabalhos de investigação histórica, baseados na ampla documentação disponível nos arquivos nacionais e portugueses, enriqueceram significativamente a bibliografia paulista. Entre sua ampla  produção bibliográfica, cumpre mencionar :   “São Paulo e a invasão holandesa”, livro que o autor dedicou  a Aureliano Leite, “pelo estremecido amor que dedica a São Paulo” ; “Brás Cubas e a Capitania de São Vicente”, trabalho de pesquisa e revelação histórica,  pelo qual recebeu o prêmio Joaquim Nabuco da Academia Brasileira de Letras, e O Engenho de São Jorge dos Erasmos”. Este estudo despertou a atenção de insignes  historiadores paulistas pela contribuição que trouxe para a compreensão dos primeiros passos da estratégia da economia portuguesa no Brasil Colonial.

O aspecto histórico do primeiro engenho paulista,  O Engenho de São Jorge dos Erasmos,  foi narrado por frei Gaspar da Madre de Deus, monge beneditino,   o primeiro historiador paulista de obra impressa segundo Taunay. As “Memórias  para a História da Capitania de S. Vicente”, impressas em 1797, por Frei Gaspar da Madre de Deus,  não contêm o terceiro tomo, cujos originais se perderam. A  relevância dessa  obra  para a história de São Paulo é tão significativa que justificou sua reimpressão por  Varnaghen, em 1847, e por Taunay, em 1920.

Intelectual com vocação  para o estudo de documentos originais, obstinado  “vasculhador de alfarrábios”, como  certa vez foi denominado,  Leite Cordeiro, amigo e parente de Taunay, encontrou, em Portugal, um apógrafo inédito das “Memórias”, que parece ter sido o rascunho do livro de Madre de Deus. É de  supor-se que esse achado tenha contribuído, em parte,    para que Leite Cordeiro se debruçasse sobre a história da economia portuguesa no Brasil colonial, atraído pela desafio  de interpretar fatos ainda bastante obscuros para a historiografia da época.

“O Engenho de São Jorge dos Erasmos   refere-se à cultura canavieira na Capitania Vicentina, onde surgiram os primeiros engenhos de açúcar, como pontos de apoio para o estabelecimento definitivo da colonização portuguesa no sul. Um deles, movido á água, possuía uma capela sob a invocação de São Jorge, um cemitério, habitações para operários e as demais dependências de um grande engenho.

Em 1516, o rei D. Manuel procurou introduzir o cultivo da cana e a tecnologia da fabricação do açúcar no Brasil. “Naquele mesmo ano”, relata Leite Cordeiro, “além de machados, enxadas e outras ferramentas, enviou à colônia um homem prático e capaz, com instruções para instalar um engenho de açúcar, mandando fornecer-lhe ferro, cobre e mais todo material necessário para a construção”.

Hábil mensageiro do rei, a expedição de Martim Afonso de Souza,  a São Vicente, em 1532, pode ser considerada o ponto de partida para a indústria açucareira no Brasil, uma vez que, segundo a citação do padre Simão Vasconcelos, esta indústria “foi a primeira que teve a planta de cana de açucar”... “Foi na vila de São Vicente que se fabricou o primeiro açúcar no Brasil”.

O fascinante estudo de Leite Cordeiro contém o mapa desenhado por João Teixeira Albernáz, no século XVI, com comentários de Enzo Silveira. Nele, assinalando o planalto, lê-se a comovente inscrição “Vila de São Paulo, 9 léguas da barra”.

O Engenho dos Erasmos é atualmente patrimônio cultural da Universidade de São Paulo. Isso ocorreu por doação concretizada  no salão nobre da Prefeitura Municipal de Santos, em solenidade realizada no dia 31 de janeiro de 1958. A mesa dos trabalhos foi integrada pelo reitor dessa universidade, Prof. Dr. Gabriel Teixeira de Carvalho,  pelo Prof. Dr. Luis Antonio Gama e Silva, catedrático de Direito, atuando como   consultor jurídico, pelo Dr. Francisco Malta Cardoso,  representando a Associação dos Usineiros de São Paulo, e pelo sr. Otávio Ribeiro de Araújo, um dos doadores do terreno, onde se encontram as ruínas do engenho.

Dois aspectos diferentes  marcam a  contribuição desse eminente historiador  à cultura brasileira: suas investigações históricas, dirigidas à verificação e à complementação da historiografia do passado paulista, e seus trabalhos como idealizador de publicações de interesse histórico.

 Deve-se a Leite Cordeiro  a publicação do “Catálogo de Documentos para a História de São Paulo”,  constituído por 15 volumes, com  cerca de cinco mil e quinhentas páginas de texto, contendo   documentos inéditos,  existentes no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa. a publicação do “ Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas”, da autoria de Luiz Correia de Melo, e a edição fac-similada, em oito volumes, do Almanaque Literário de São Paulo, editado por José Maria Lisboa, no período de 1876 a 1885. Cumpre realçar, também,  a Reedição das “Plantas da Cidade de São Paulo” e a a criação da Biblioteca da Academia Paulista de Letras, que se propôs a editar obras esgotadas e raridades bibliográficas, consideradas de  interesse para a cultura paulista.

Theodor Rosenthal, no discurso pronunciado sobre Leite Cordeiro, por ocasião de sua posse na Academia Paulista de Letras,  disse que grande parte das energias desse historiador foram dirigidas para o estudo da penetração portuguesa em terras brasileiras.

Na opinião do acadêmico  Dutra de Moraes, sua obra de valor incontestável, valeu-se, da co-participação de historiadores brasileiros e portugueses.  Foi o trabalho conjugado desses especialistas que permitiu comparar as informações da historiografia luso-brasileira ao longo do tempo e revelar a história como a verdadeira “magistra vitae”.

Após “cumprir a  jornada antes que a noite chegasse”,  Leite Cordeiro faleceu no dia 2 de janeiro de 1986, aos 71 anos de idade.

Várias entidades culturais manifestaram publicamente a desolação de sua perda e  uniram-se para abrir um espaço a sua memória na cidade de São Paulo. E assim o fizeram para justo orgulho da gente paulistana. Sua herma, em bronze,   castiça  expressão de respeito e saudade,  mais pura e constante tradução da unidade dos sentimentos de uma nação,  foi colocada em pedestal no Largo do Arouche, de frente para a Academia Paulista de Letras, entidade que  tanto honrou e amou. 

ooOoo

Discurso proferido por Nelly Martins Ferreira Candeias ao tomar posse na Academia Paulista de História, em 22 de dezembro de 2000, em sessão solene realizada no Salão Nobre da antiga Casa de Dona Veridiana Prado, hoje Clube São Paulo.

*Nelly Martins Ferreira Candeias é professora aposentada da Faculdade de Saúde Pública e Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

 
 
 
 
 

 

     

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