José Pedro Leite Cordeiro nasceu em Campinas, a
14 de julho de 1914, filho do
Dr.
Linneo Cordeiro e da
Sra. Dulce Hermínia
Leite Cordeiro, ambos oriundos de tradicionais
famílias bandeirantes. Médico,
biógrafo,
genealogista e historiador, realizou seus
estudos primários e secundários em Campinas e
na cidade de São Paulo, tendo ingressado na
Faculdade de Medicina de São Paulo, em 1932,
onde se diplomou em 1937. Aperfeiçoou-se em
técnica cirúrgica e cirurgia
experimental com o eminente Professor
Benedito Montenegro, catedrático dessa Escola.
Em 1939, casou-se
com Dona Maria Isabel Platt
de Macedo Soares, filha de José Cássio de Macedo
Soares e de Dona Maria do Carmo
Platt de Macedo
Soares, de quem teve um único filho. Dona Maria
Isabel, Bellah,
nasceu em São Paulo, no solar de seu tataravô,
Barão de Souza Queiroz, local onde hoje se
encontra a Biblioteca Mário de Andrade.
Formou-se no Colégio
“Des
Oiseaux,” em cujas
classes obteve numerosas distinções.
Leite Cordeiro teve o privilégio de contar com o
convívio cotidiano e com a
amizade do Embaixador, Secretário e
Ministro de Estado, José Carlos de Macedo
Soares, então Presidente da Academia Brasileira
de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, que lhe colocou à disposição sua
biblioteca brasiliana. Foi lá que
iniciou suas primeiras pesquisas.
Em 5 de junho de 1944, aos 30 anos de idade,
ingressou no Instituto Histórico e Geográfico de
São Paulo, onde
atuou oito anos, como orador oficial, tendo
sido eleito cinco vezes como presidente.
Em 23 de março de
1956, tomou posse na Academia Paulista de
Letras, onde ocupou a cadeira 19, cujo patrono é
o Barão de Piratininga, ocasião em que foi
saudado pelo insigne historiador Aureliano
Leite. Foi o oitavo dessa entidade, no período
de 1975 a 1978. Membro da Academia Portuguesa de
História, em Lisboa,
teve a honra de ocupar uma das dez cadeiras
destinadas a brasileiros, entre as 40 cadeiras
dessa entidade.
Seus trabalhos de investigação histórica,
baseados na ampla documentação disponível nos
arquivos nacionais e portugueses, enriqueceram
significativamente a bibliografia paulista.
Entre sua ampla
produção bibliográfica, cumpre mencionar : “São
Paulo e a invasão holandesa”, livro
que o autor dedicou a Aureliano Leite, “pelo
estremecido amor que dedica a São Paulo” ; “Brás
Cubas e a Capitania de São Vicente”,
trabalho de pesquisa e revelação histórica,
pelo qual recebeu o prêmio Joaquim Nabuco da
Academia Brasileira de Letras, e
O Engenho de São
Jorge dos Erasmos”.
Este estudo despertou a atenção de insignes
historiadores paulistas pela contribuição que
trouxe para a compreensão dos primeiros passos
da estratégia da economia portuguesa no Brasil
Colonial.
O aspecto histórico do primeiro engenho
paulista,
O Engenho de São
Jorge dos Erasmos,
foi narrado por frei Gaspar da Madre de Deus,
monge beneditino, o primeiro historiador
paulista de obra impressa segundo Taunay. As
“Memórias
para a História da Capitania de S.
Vicente”, impressas em 1797, por Frei
Gaspar da Madre de Deus, não contêm o terceiro
tomo, cujos originais se perderam. A
relevância dessa obra para a história
de São Paulo é tão significativa que justificou
sua reimpressão por
Varnaghen, em 1847, e por Taunay, em
1920.
Intelectual com vocação
para o estudo de documentos originais,
obstinado “vasculhador
de alfarrábios”, como certa vez foi
denominado, Leite Cordeiro, amigo e parente de
Taunay, encontrou, em Portugal, um apógrafo
inédito das “Memórias”, que parece ter sido o
rascunho do livro de Madre de Deus. É de
supor-se que esse achado tenha
contribuído, em parte, para que Leite
Cordeiro se debruçasse sobre a história da
economia portuguesa no Brasil colonial, atraído
pela desafio de interpretar fatos ainda
bastante obscuros para a historiografia da
época.
“O Engenho de São Jorge dos
Erasmos”
refere-se à cultura canavieira na Capitania
Vicentina, onde surgiram os primeiros engenhos
de açúcar, como pontos de apoio para o
estabelecimento definitivo da colonização
portuguesa no sul. Um deles, movido á água,
possuía uma capela sob a invocação de São Jorge,
um cemitério, habitações para operários e as
demais dependências de um grande engenho.
Em 1516, o rei D. Manuel procurou introduzir o
cultivo da cana e a tecnologia da fabricação do
açúcar no Brasil. “Naquele mesmo ano”, relata
Leite Cordeiro, “além de machados, enxadas e
outras ferramentas, enviou à colônia um homem
prático e capaz, com instruções para instalar um
engenho de açúcar, mandando fornecer-lhe ferro,
cobre e mais todo material necessário para a
construção”.
Hábil mensageiro do rei, a expedição de Martim
Afonso de Souza, a
São Vicente, em 1532, pode ser considerada o
ponto de partida para a indústria açucareira no
Brasil, uma vez que, segundo a citação do padre
Simão Vasconcelos, esta indústria “foi a
primeira que teve a planta de cana de
açucar”... “Foi na
vila de São Vicente que se fabricou o primeiro
açúcar no Brasil”.
O fascinante estudo de Leite Cordeiro contém o
mapa desenhado por João Teixeira
Albernáz, no século
XVI, com comentários de
Enzo Silveira. Nele, assinalando o
planalto, lê-se a comovente inscrição “Vila de
São Paulo, 9 léguas
da barra”.
O Engenho dos Erasmos
é atualmente patrimônio cultural da Universidade
de São Paulo. Isso ocorreu por doação
concretizada no
salão nobre da Prefeitura Municipal de Santos,
em solenidade realizada no dia 31 de janeiro de
1958. A mesa dos trabalhos foi integrada pelo
reitor dessa universidade, Prof. Dr. Gabriel
Teixeira de Carvalho,
pelo Prof. Dr. Luis Antonio Gama e Silva,
catedrático de Direito, atuando como consultor
jurídico, pelo Dr. Francisco Malta Cardoso,
representando a Associação dos Usineiros de São
Paulo, e pelo sr. Otávio Ribeiro de Araújo, um
dos doadores do terreno, onde se encontram as
ruínas do engenho.
Dois aspectos diferentes
marcam a contribuição desse eminente
historiador à cultura brasileira: suas
investigações históricas, dirigidas à
verificação e à complementação da historiografia
do passado paulista, e seus trabalhos como
idealizador de publicações de interesse
histórico.
Deve-se a Leite Cordeiro
a publicação do
“Catálogo de
Documentos para a História de São Paulo”,
constituído por 15 volumes, com cerca de cinco
mil e quinhentas páginas de texto, contendo
documentos inéditos, existentes no Arquivo
Histórico Ultramarino, em Lisboa.
a publicação do
“ Dicionário de
Bandeirantes e Sertanistas”, da
autoria de Luiz Correia de Melo, e a edição
fac-similada, em oito volumes, do
Almanaque
Literário de São Paulo, editado por
José Maria Lisboa, no período de 1876 a 1885.
Cumpre realçar, também,
a
Reedição das “Plantas da Cidade de São Paulo”
e a a criação da
Biblioteca da Academia Paulista de Letras, que
se propôs a editar obras esgotadas e raridades
bibliográficas, consideradas de interesse para
a cultura paulista.
Theodor Rosenthal, no discurso pronunciado sobre
Leite Cordeiro, por ocasião de sua posse na
Academia Paulista de Letras,
disse que grande parte das energias desse
historiador foram dirigidas para o estudo da
penetração portuguesa em terras brasileiras.
Na opinião do acadêmico
Dutra de Moraes, sua obra de valor
incontestável, valeu-se, da co-participação de
historiadores brasileiros e portugueses. Foi o
trabalho conjugado desses especialistas que
permitiu comparar as informações da
historiografia luso-brasileira ao longo do tempo
e revelar a história como a verdadeira “magistra
vitae”.
Após “cumprir a
jornada antes que a noite chegasse”, Leite
Cordeiro faleceu no dia 2 de janeiro de 1986,
aos 71 anos de idade.
Várias entidades culturais manifestaram
publicamente a desolação de sua perda e
uniram-se para abrir um espaço a sua
memória na cidade de São Paulo. E assim o
fizeram para justo orgulho da gente paulistana.
Sua herma, em bronze,
castiça expressão de respeito e
saudade, mais pura e constante tradução da
unidade dos sentimentos de uma nação, foi
colocada em pedestal no Largo do Arouche, de
frente para a Academia Paulista de Letras,
entidade que tanto honrou e amou.
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