No coração da América Latina
Há uma obra prima de natureza cênica!
Marie Robinson
Wright
Vida e obra
Jornalista,
escritora e historiadora, Marie
Robinson
Wright foi
a segunda mulher a
tomar posse no Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo, em 20 de julho de 1901, poucos
meses após o ingresso da médica e educadora
Marie Rennotte.
Filha de abastada família de fazendeiros
americanos, Marie nasceu em 1866 em Newman,
Georgia. Viúva aos
20 anos, mãe de duas crianças e sem ter como
mantê-las, decidiu entrar para a carreira
jornalística, passando a trabalhar no
Sunny
South,
jornal semanal de Atlanta. Anos depois, mudou-se
para Nova York, onde trabalhou como
correspondente do
New
York World.
No início da década de 1890, Marie deu início a
suas viagens pela América Latina,
passando a escrever livros sobre o Brasil,
México, Chile e Peru, sempre ilustrados com
gravuras que coletou nos estúdios de fotógrafos
famosos.
No livro
A mulher no Rio
de Janeiro no século XIX, um índice de
referências em livros de viajantes estrangeiros,
lê-se que Marie Wright
esteve no Rio de Janeiro em 1889. Seu nome
encontra-se no item Educação,
à pág. 95, descrita
como pessoa interessada em assuntos sobre
escolas para meninas, professoras, mulheres
escritoras, imprensa feminina, mulheres
profissionais, médicas, advogadas e arquitetas.
Seu nome consta na
revista “A
Mensageira”, publicação feminina
dirigida por Prisciliana
Duarte de Almeida, composta por crônicas,
sonetos, artigos e informações de interesse para
as interessadas no tema direitos das mulheres.
Relata-se que, em outubro de 1899, Marie
Wright e Miss
Hartman, chegaram ao
Brasil com o intuito de percorrer a república
brasileira. Assim se registra a passagem das
duas escritoras em nosso meio:
Tão agradável quanto inesperada foi a
honrosíssima visita
com que nos distinguiram as ilustres escritoras
norte-ameicanas,
mistress
Robinson
Wright e miss
Hartman, que ora
percorrem a república
brasileira, procurando conhecer de perto a nossa
grandiosa pátria (...).
A eminente jornalista e celebrada historiadora,
tida geralmente como a primeira escritora
contemporânea da América do Norte, - mostrava-se
visivelmente satisfeita e
muito bem impressionada com o Brasil. As
ilustres escritoras visitaram a Escola Normal,
foram à Cantareira e percorreram os principais
pontos da capital paulista, tendo sido recebidas
no Palácio, pelo coronel Fernando Prestes,
ilustre presidente do Estado. Em Piracicaba,
visitaram o Dr.
Prudente de Moraes, ex-presidente da República
(...).
Marie
Robinson
Wright veio ao
Brasil em busca das informações que viriam a
fundamentar o livro de sua autoria,
The
New
Brazil,
its
resources
and
attractions,
historical,
descriptive
and industrial,
publicado em 1901. A obra é dedicada ao Dr.
Manoel Ferraz de Campos Salles, Presidente dos
Estados Unidos do Brasil,
um líder entre
os grandes homens que estão moldando o destino
do mundo ocidental e considerado como um dos
mais célebres estadistas na criação da Nova
República.
Ao constatar a
inexistência de uma
sociedade sufragista no país, Marie faz
oportunos comentários sobre o incipiente
feminismo no Brasil, afirmando que, muito embora
as mulheres tivessem um pouco mais de liberdade,
o movimento continuava a ser pouco agressivo,.
De fato, só 35 anos depois, em 1934,
conseguiriam as mulheres brasileiras
obter o direito de votar, graças,
principalmente, ao obstinado empenho de Berta
Lutz, filha do
cientista Adolfo Lutz.
O comentário era portanto
pertinente.
Com o título “As
ruas são embelezadas por numerosas árvores
frondosas” Ernani Bruno,
em
Memória da Cidade de São Paulo, Depoimentos de
moradores e visitantes/ 1553 – 1958,
publica texto do referido livro,
The
New
Brazil ,
no qual Marie descreve São Paulo como: “(...)
florescente centro comercial e educacional, com
uma população de 250.000 habitantes. O governo
municipal apresenta características avançadas e
progressistas, reveladas por métodos liberais
que se manifestam em todos os detalhes da
administração”. “
(...) A maior parte da cidade é de construção
moderna, com ruas largas e bem pavimentadas,
cruzando-se em ângulos retos; quarteirões com
belos edifícios comerciais, palacetes, colégios
circundados por belos jardins gramados e
cottages aninhados
sob frondosas árvores”. ”
(...) O principal ponto de atração de
todos os visitantes da cidade é o Ipiranga, o
magnífico monumento erigido em 1885 no lugar
onde foi proclamada a independência do Brasil em
1822. (...) O Museu do Ipiranga possui tesouros
de grande interesse histórico e científico;
valiosas e curiosas relíquias e também algumas
das melhores pinturas de artistas brasileiros.
(...) Outros modernos melhoramentos que
satisfazem as necessidades dos moradores são: os
benefícios da luz elétrica e do gás, um ótimo
serviço de águas e de drenagem e os serviços
telefônico, telegráfico e postal".
O
livro
intitulado
The Brazilian
National Exposition of 1908, in celebration of
the centenary of the opening of Brazilian Ports
of the Commerce of the World by the Prince
Regent Dom João VI
of Portugal, in 1808,
comemora o
centenário da
abertura dos
portos
brasileiros
ao
comércio do
mundo.
A respeito desse
fato, assim
se expressa a autora:
Sinto que é uma honra e um privilégio escrever o
livro oficial comemorativo da Exposição Nacional
de 1808, na celebração do centenário da abertura
dos portos ao comércio mundial, e alegro-me com
o sucesso da magnífica exposição das industrias
nacionais, tão artisticamente apresentada nos
belos palácios e pavilhões da Praia Vermelha.
The
National
Geographic Magazine
Marie
Robinson
Wright destacou-se
por ter sido uma das primeiras mulheres a
publicar um artigo na revista
The
National
Geographic Magazine,
fato raro na época. Trata-se de
“The
Falls of
Iguazu”.
No coração da América do Sul, no lugar em que
três repúblicas se encontram, Brasil, Argentina
e Paraguai, a Natureza escolheu o lugar para uma
obra prima de grandeza cênica, que só pode ser
comparada à poderosa
Niagara em majestade, sendo
considerada por alguns dos viajantes que
a conheceram, como ainda maior do que a
contraparte norte americana.
Marie Robinson Wright no IHGSP
Consta no volume
XIX da Revista do Instituto
Histórico e Geográfico de São Paulo, que Marie
pertenceu “ao
nosso grêmio desde de 20 de julho de 1903,
graças ao interesse que sempre manifestou pelos
países sul-americanos e ao seu livro
The
New
Brazil. Escreveu
muito e viajou não menos. (...)
Colaborou no New
York World e no
Illustrated
Statfford, viajou a
América do Sul, atravessou por
vêzes os Andes e
escreveu coisas assás
interessantes a propósito do Brasil, da
Argentina, do Peru e do México. Foi
uma escritora, senhora de grande renome e “globetrotter”
infatigável.
São palavras de
despedida. Marie Robinson
Wright morreu aos 47
anos. Seu elogio póstumo foi pronunciado, na
sessão solene de 1o de novembro de
1914, por . Francisco
Morato, data em que
o presidente do Instituto comunicou oficialmente
que o
Instituto acabara de perder um dos nomes que
abrilhantavam o quadro dos seus sócios
honorários, pois, dos Estados Unidos da América
do Norte, o telégrafo transmitiu a infausta
notícia do falecimento de Miss Marie
Robinson
Wright, a quem se
devia o interessante livro
The New
Brazil.
Obras raras em
edições belíssimas, os livros da autora
encontram-se nas bibliotecas do Museu Paulista,
do Instituto de Estudos Brasileiros e da
Esalq - no
acervo da Universidade de São Paulo - e na
Biblioteca Municipal Mario de Andrade. No
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
existe um exemplar do livro
The
New
Brazil.
Trata-se de uma
segunda edição, revista e ampliada. O valor
histórico e a beleza de suas
publicações justificam plenamente o fato
de Marie Robinson
Wright ter sido a
segunda mulher a tomar posse nessa notável
instituição, em 1901.
Bibliografia
Marie
Robinson Wright.
Picturesque
Mexico, J.P.
Lippincott Co., 1897
Marie
Robinson Wright,
The
New Brazil, Its Resources and Attractions,
Historical, Descriptive and Industrial.
Philadelphia, George Barrie & Son. London, C.D.
Cazenove & Son,
Paris, s/c/p/,1901.
Marie
Robinson Wright,
Republic of
Chile, George Barrie & Sons, London,
1904.
Marie
Robinson Wright,
The falls of
Iguazu.
National Geographic Magazine, Aug., volume XVII,
1906.
págs. 456-460.
Marie
Robinson Wright,
The Brazilian
National Exposition of 1908 in celebration of
the opening of Brazilian ports do the commerce
of the worldby the
Prince Regent Dom João
VI of Portugal in 1808.
Philadelphia, G. Barrie &
Sons, 1908.
Marie
Robinson Wright, Peru,
The
Old and the New. G. Barrie & Sons,
Philadelphia, 1908.
Marie
Robinson Wright, Mexico,
A
History of Progress. G. Barrie &
Sons, Philadelphia, 1911.
Marie
Robinson Wright, “The New Brazil”, in
Ernani Silva Bruno.
Memória da cidade de São Paulo.
Depoimento de moradores e visitantes, 1553/1958.
Série Registros 4,
Publicação do Departamento do Patrimônio
Histórico de São Paulo, 1981,
pags. 115-138.
Miriam L. Moreira
Leite et al.
A mulher no Rio
de Janeiro no século XIX, um índice de
referências em livros de viajantes estrangeiros.
Fundação Carlos Chagas, São Paulo, 1982.
p. 153 e 167, p. 20.
A Mensageira,
Notas pequenas, Mistress
Robinson
Wright e Miss
Hartman.vol.
II, N.33, 1899, págs. 182-83
Revista do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Falecimento de Marie
Robinson Wright.
Voto de pesar, em 23/3/1914.Necrológio por
Francisco
Morato
Vol.19, 1914,
págs.1171 e 1143.
*Nelly Martins Ferreira Candeias é
professora aposentada da Faculdade de Saúde
Pública e Presidente do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo.