Série Mulheres do IHGSP
 

  
 

Marie Robinson Wright

1866 – 1914

                                          NELLY MARTINS FERREIRA CANDEIAS*

 

                                                           No coração da América Latina

                                                           Há uma obra prima de natureza cênica!

                                                                        Marie Robinson Wright

                                                                                 

Vida e obra

Jornalista, escritora e historiadora, Marie Robinson Wright foi a segunda mulher a tomar posse no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 20 de julho de 1901, poucos meses após o ingresso da médica e educadora Marie Rennotte. Filha de abastada família de fazendeiros americanos, Marie nasceu em 1866 em Newman, Georgia. Viúva aos 20 anos, mãe de duas crianças e sem ter como mantê-las, decidiu entrar para a carreira jornalística, passando a trabalhar no Sunny South, jornal semanal de Atlanta. Anos depois, mudou-se para Nova York, onde trabalhou como correspondente do New York World. No início da década de 1890, Marie deu início a  suas viagens pela América Latina, passando a escrever livros sobre o Brasil, México, Chile e Peru, sempre ilustrados com gravuras que coletou nos estúdios de fotógrafos famosos.

No livro A mulher no Rio de Janeiro no século XIX, um índice de referências em livros de viajantes estrangeiros, lê-se que Marie Wright esteve no Rio de Janeiro em 1889. Seu nome encontra-se no item Educação, à pág. 95,  descrita como pessoa interessada em assuntos sobre escolas para meninas, professoras, mulheres escritoras, imprensa feminina, mulheres profissionais,  médicas, advogadas e arquitetas.

Seu nome consta na revista  A Mensageira”, publicação  feminina dirigida por Prisciliana Duarte de Almeida, composta por crônicas, sonetos, artigos e informações de interesse para as interessadas no tema direitos das mulheres. Relata-se que, em outubro de 1899, Marie Wright e Miss Hartman, chegaram ao Brasil com o intuito de percorrer a república brasileira. Assim se registra a passagem das duas escritoras em nosso meio:

Tão agradável quanto inesperada foi a honrosíssima visita com que nos distinguiram as ilustres escritoras norte-ameicanas, mistress Robinson Wright e miss Hartman, que ora percorrem a república brasileira, procurando conhecer de perto a nossa grandiosa pátria (...).

A eminente jornalista e celebrada historiadora, tida geralmente como a primeira escritora contemporânea da América do Norte, - mostrava-se visivelmente satisfeita e muito bem impressionada com o Brasil. As ilustres escritoras visitaram a Escola Normal, foram à Cantareira e percorreram os principais pontos da capital paulista, tendo sido recebidas no Palácio, pelo coronel Fernando Prestes, ilustre presidente do Estado. Em Piracicaba, visitaram o Dr. Prudente de Moraes, ex-presidente da República (...).

Marie Robinson Wright veio ao Brasil em busca das informações que viriam a fundamentar o livro de sua autoria, The New Brazil, its resources and attractions, historical, descriptive and industrial, publicado em 1901. A obra é dedicada ao Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles, Presidente dos Estados Unidos do Brasil, um líder entre os grandes homens que estão moldando o destino do mundo ocidental e considerado como um dos mais célebres estadistas na criação da Nova República.

Ao constatar a inexistência de  uma sociedade sufragista no país, Marie faz oportunos comentários   sobre o incipiente feminismo no Brasil, afirmando que, muito embora as mulheres tivessem um pouco mais de liberdade, o movimento continuava a ser pouco agressivo,. De fato, só 35 anos depois, em 1934,   conseguiriam as mulheres brasileiras  obter o direito de votar,  graças, principalmente,  ao obstinado empenho   de Berta Lutz, filha do cientista Adolfo Lutz. O comentário era portanto  pertinente.

Com o título “As ruas são embelezadas por numerosas árvores frondosas” Ernani Bruno,  em  Memória da Cidade de São Paulo, Depoimentos de moradores e visitantes/ 1553 – 1958, publica texto do referido livro, The New Brazil , no qual  Marie descreve São Paulo como:  “(...) florescente centro comercial e educacional, com uma população de 250.000 habitantes. O governo municipal apresenta características avançadas e progressistas, reveladas por métodos liberais que se manifestam em todos os detalhes da administração”.  (...) A maior parte da cidade é de construção moderna, com ruas largas e bem pavimentadas, cruzando-se em ângulos retos; quarteirões com belos edifícios comerciais, palacetes, colégios circundados por belos jardins gramados e cottages aninhados sob frondosas árvores”. (...) O principal ponto de atração de todos os visitantes da cidade é o Ipiranga, o magnífico monumento erigido em 1885 no lugar onde foi proclamada a independência do Brasil em 1822. (...) O Museu do Ipiranga possui tesouros de grande interesse histórico e científico; valiosas e curiosas relíquias e também algumas das melhores pinturas de artistas brasileiros. (...) Outros modernos melhoramentos que satisfazem as necessidades dos moradores são: os benefícios da luz elétrica e do gás, um ótimo serviço de águas e de drenagem e os serviços telefônico, telegráfico e postal".

O livro intitulado The Brazilian National Exposition of 1908, in celebration of the centenary of the opening of Brazilian Ports of the Commerce of the World by the Prince Regent Dom João VI of Portugal, in 1808, comemora  o centenário da abertura dos portos brasileiros ao comércio do mundo. A respeito desse fato, assim se expressa a autora:

Sinto que é uma honra e um privilégio escrever o livro oficial comemorativo da Exposição Nacional de 1808, na celebração do centenário da abertura dos portos ao comércio mundial, e alegro-me com o sucesso da magnífica exposição das industrias nacionais, tão artisticamente apresentada nos belos palácios e pavilhões da Praia Vermelha.

The National Geographic Magazine

Marie Robinson Wright destacou-se por ter sido uma das primeiras mulheres a publicar um artigo na revista The  National Geographic Magazine, fato raro na época. Trata-se de  The Falls of Iguazu”.

No coração da América do Sul, no lugar em que três repúblicas se encontram, Brasil, Argentina e Paraguai, a Natureza escolheu o lugar para uma obra prima de grandeza cênica, que só pode ser comparada à poderosa Niagara em majestade, sendo  considerada por alguns dos viajantes que a conheceram, como ainda maior do que a contraparte norte americana.

 

Marie Robinson Wright no IHGSP

Consta no volume XIX da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que Marie pertenceuao nosso grêmio desde de 20 de julho de 1903, graças ao interesse que sempre manifestou pelos países sul-americanos e ao seu livro The New Brazil. Escreveu muito e viajou não menos. (...) Colaborou no New York World e no Illustrated Statfford, viajou a América do Sul, atravessou por vêzes os Andes e escreveu coisas assás interessantes a propósito do Brasil, da Argentina, do Peru e do México.   Foi uma escritora, senhora de grande renome e “globetrotter” infatigável.

São palavras de despedida. Marie Robinson Wright morreu aos 47 anos. Seu elogio póstumo foi pronunciado, na sessão solene de 1o de novembro de 1914, por . Francisco Morato, data em que o presidente do Instituto comunicou oficialmente que o Instituto acabara de perder um dos nomes que abrilhantavam o quadro dos seus sócios honorários, pois, dos Estados Unidos da América do Norte, o telégrafo transmitiu a infausta notícia do falecimento de Miss Marie Robinson Wright, a quem se devia o interessante livro The New Brazil.

Obras raras em edições belíssimas, os livros da autora encontram-se nas bibliotecas do Museu Paulista, do Instituto de Estudos Brasileiros e da   Esalq - no acervo da Universidade de São Paulo - e na Biblioteca Municipal Mario de Andrade. No Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo existe um exemplar do livro The New Brazil. Trata-se de uma  segunda edição, revista e ampliada. O valor histórico e a beleza de suas  publicações justificam plenamente o fato de Marie Robinson Wright ter sido a segunda mulher a tomar posse nessa notável instituição, em 1901. 

Bibliografia

 

Marie Robinson Wright. Picturesque Mexico, J.P. Lippincott Co., 1897

 

Marie Robinson Wright, The New Brazil, Its Resources and Attractions, Historical, Descriptive and Industrial. Philadelphia, George Barrie & Son. London, C.D. Cazenove & Son, Paris, s/c/p/,1901.

 

Marie Robinson Wright, Republic of Chile, George Barrie & Sons, London, 1904.

 

Marie Robinson Wright, The falls of Iguazu. National Geographic Magazine, Aug., volume XVII, 1906. págs. 456-460.

 

Marie Robinson Wright, The Brazilian National Exposition of 1908 in celebration of the opening of Brazilian ports do the commerce of the worldby the Prince Regent Dom João VI of Portugal in 1808. Philadelphia, G. Barrie & Sons, 1908.

 

Marie Robinson Wright, Peru, The Old and the New. G. Barrie & Sons, Philadelphia, 1908.

Marie Robinson Wright, Mexico, A History of Progress. G. Barrie & Sons, Philadelphia, 1911.

 

Marie Robinson Wright, “The New Brazil”, in Ernani Silva Bruno. Memória da cidade de São Paulo. Depoimento de moradores e visitantes, 1553/1958. Série Registros 4, Publicação do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo, 1981, pags. 115-138.

 

Miriam L. Moreira Leite et al. A mulher no Rio de Janeiro no século XIX, um índice de referências em livros de viajantes estrangeiros. Fundação Carlos Chagas, São Paulo, 1982. p. 153 e 167, p. 20.

 

A Mensageira, Notas pequenas, Mistress Robinson Wright e Miss Hartman.vol. II, N.33, 1899, págs. 182-83

 

Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Falecimento de Marie Robinson Wright. Voto de pesar, em 23/3/1914.Necrológio por Francisco Morato

Vol.19, 1914, págs.1171 e 1143.

*Nelly Martins Ferreira Candeias é professora aposentada da Faculdade de Saúde Pública e Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

 
 
 
 
 

 

     

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