Sou agora
uma professora titular aposentada, RDIDP, da
Universidade de São Paulo. Responsável pelo
estudo intitulado "Memória da USP", por sugestão
do então reitor Flávio Fava de Moraes, tive o
privilégio de conhecer a opinião de 220
professores aposentados que devolveram,
preenchidos, os questionários que lhes foram
entregues por ocasião de um dos recadastramentos
promovidos pela Reitoria. Muitos deles me
procuraram pessoalmente na Faculdade de Saúde
Pública, tão envolvidos
se sentiram com os depoimentos pessoais e
histórias de vida. Fiz assim novos amigos com os
quais até hoje me comunico. José Alberto Neves
Candeias, meu marido, professor titular
aposentado do Instituto de Ciências Biomédicas,
foi um dos docentes que participaram desse
estudo. Somando a vida ativa dos dois, ele e eu
trabalhamos 65 anos para a Universidade
de São Paulo e eu fico orgulhosa por o
Laboratório de Virologia da Universidade de São
Paulo ter recebido o nome dele, agradecendo à
providência o fato de nos termos na mesma
estação e à espera do mesmo trem.
Na minha vida
acadêmica tudo funcionou "como um trem sobre
trilhos". Como se a estação de uma ferrovia
estivesse sempre à minha espera. Fui eu quem
entrou no trem e fiz com que as coisas fossem
acontecendo nas estações da minha vida.
Entro na
aposentadoria com a alegre sensação de missão
cumprida. De acordo com os critérios que adotei
para descrever os dados quantitativos do estudo
dos aposentados, incluo-me na faixa etária com
61-70 anos (intervalo de classe bastante
discreto...), representando 32,6% do total de
professores que responderam ao questionário.
Comparando-me com os dados levantados, faço
parte dos 84% que, de acordo com essa pesquisa,
se voltassem ao passado reiniciariam essa mesma
vida profissional; dos 33% e dos 28% que
consideraram as atividades de ensino e as
condições das atividades acadêmicas em relação à
comunidade, respectivamente, "totalmente
satisfatórias". Quer isto dizer que me sinto
realizada nos três níveis de funções
universitárias: ensino, pesquisa e serviços à
comunidade.
No que diz
respeito a programas de ensino, sempre trabalhei
conjuntamente com professores de universidades
estrangeiras. Trouxe para o Brasil, com
privilegiada e obstinada regularidade, sempre
com o apoio de nossas agências financiadoras,
professores, educadores e pesquisadores da área
que hoje se denomina Promoção em Saúde. Por meu
intermédio trouxe para a USP o grande teórico
Lawrence w.
Green, cujo modelo
de planejamento – PRECEDE, foi aplicado em
grande número de países do mundo. Embora nem
todos simpatizem ou concordem com esse approach
(ainda bem), o fato é que freqüentemente meus
alunos de pós-graduação referiam-se a ele como o
instrumento mais valioso para o diagnóstico,
planejamento e prática do componente educativo
de programas na área da saúde. O modelo, que
encontrei em uma revista científica, arrumava o
caos da prática, mostrando, de forma
razoavelmente simples, as características de
etapas seqüenciais. O fato é que, por reconhecer
o valor desse esquema teórico, trouxe para São
Paulo seu autor que fora, como eu, aluno da
Faculdade de Saúde Pública da Universidade da
Califórnia em Berkeley. Tínhamos, portanto,
muitas coisas em comum. Lembro-me que certa vez,
no exterior, alguém se referiu a
Green como a ovelha
negra da educação em saúde. Isso significa que
temos de prestar mais atenção às raras ovelhas
negras que cruzam os caminhos de nossas vidas...
Além de
Green, outros
professores e professoras das Universidades de
Houston, Los Angeles
e Chapel Hill trabalharam comigo no Departamento
de Prática de Saúde Pública da FSP. Lembro aqui
o nome de Snehendu
Kar (Ucla),
um indiano que vive em Los
Angeles e que, ainda muito jovem, conseguiu
estabilidade (tenure)
nas universidades americanas. Nossa amizade se
intensificou quando percebemos que ambos
tínhamos sido indicados para estudar na
Universidade de Berkeley, pela mesma pessoa,
professora Dorothy
Nyswander, por
ocasião de suas visitas à Índia e ao Brasil. O
que me atraiu em Snehendu,
além de seu profundo conhecimento
técnico-científico, foi a
imensa cultura que tinha, entre outros, em
filosofia e música erudita. Além disso, era um
hábil analista da política departamental de sua
escola. Via o todo com uma rapidez espantosa,
fato que verifiquei na FSP quando, em palestra
imprevista, descreveu a situação da
pós-graduação na Ucla.
Foi brilhante.
Meu mais recente
esforço e último, nesse sentido, foi trazer para
o Brasil um precioso livro sobre Promoção em
Saúde, publicado na Inglaterra, e, logo a
seguir, seu editor, Gordon
MacDonald.
Realizamos um programa bem-sucedido e com grande
impacto interinstitucional
em São Paulo, por termos envolvido, além das
universidades paulistas, a FIESP, SESI, SENAC e
outros.
Tendo mencionado
esse meu hábito de adquirir livros no exterior,
gostaria de registrar um fato que considero
pitoresco e que muito nos fez rir, meu marido e
eu, durante uma de nossas idas a Londres. Ao
voltar para o hotel com novos livros nas mãos,
comentei, após dar uma olhada na bibliografia
citada, que, em Londres, também havia pessoas
com o sobrenome Candeias. Quando fui verificar,
o nome era o meu próprio! Vejo nesse fato, mais
do que uma alegria passageira ou pitoresca
curiosidade, a importância de publicar nossos
trabalhos fora do País em inglês. Quantos bons
estudos foram realizados no Brasil, sem atingir
a comunidade científica internacional. A ciência
é como os esportes nas Olimpíadas, o país tem
que aparecer, até porque, muitas vezes, são de
nossa autoria os conhecimentos que prevalecem e
se multiplicam... É uma questão de treino.
Um dos aspectos
interessantes no que diz respeito a pesquisas
foi o fato de eu ter enveredado por um caminho
completamente inesperado na minha trajetória
científica. Realizei dois estudos sobre
metalúrgicos. O levantamento dos dados foi
extremamente penoso. Em relação a metalúrgicos
na ativa, cujo delineamento prévio foi de
natureza tripartite, recebi a autorização
(pasmem!) de entrevistar 452 pessoas em seus
locais de trabalho, desde que..
só se... E foi isso
que ocorreu. Durante cerca de quatro meses
levantei-me às 5 da manhã, para estar na fábrica
às 7, visto que só
poderia entrevistar os operários antes do início
de suas atividades na fábrica. Os dados
levantados por esse estudo foram importantes
para a compreensão dos aspectos educativos da
saúde ocupacional, dizia Diogo
Pupo Nogueira,
Professor Emérito da Faculdade de Saúde Pública.
Mestre, colega e
amigo, a quem muito devo, acompanhou com
entusiasmo e paciência esse meu "caminho de
Santiago de Compostela".
O referido estudo despertou o interesse de um
poderoso sindicato de São Paulo, levando à
realização de um segundo estudo também a
respeito de metalúrgicos, ocasião em que
entrevistei, em seus domicílios, 303
aposentados. Portanto, entrevistei pessoalmente
755 trabalhadores de ambos os sexos! Esse foi,
talvez, o período mais agitado da minha vida
acadêmica. O fato é que, terminados esses dois
estudos, o processo de negociação prévia e os
resultados alcançados passaram a constituir o
conteúdo programático de meus cursos de
pós-graduação, dos pontos de vista teórico e
prático.
No que se refere a
serviços à comunidade, foi imensa a variedade de
situações vividas por mim. Não quero que este
relato se transforme em um cansativo CV.
Trabalhei com noruegueses, finlandeses, suecos,
japoneses, coreanos, portugueses, italianos,
ingleses, norte-americanos, canadenses,
uruguaios, chilenos, colombianos e argentinos.
Além disso, participei intensamente de grupos de
trabalho empresariais e sindicais. Riquíssima
experiência!
Recentemente,
consegui trazer os meninos da Febem à Faculdade
de Saúde Pública. Nunca vi tanta polícia na
minha vida... O importante é que os meninos
tocaram música erudita no saguão da biblioteca
da faculdade. No dia seguinte, como parte desse
mesmo programa de Promoção em Saúde, de caráter
internacional, ocasião em que o já mencionado
Gordon
MacDonald se
encontrava aqui, vários ônibus e alguns
caminhões chegaram à faculdade, trazendo meninos
e tambores. Ao meio- dia
em ponto, para não incomodar professores e
alunos, teve início a apresentação dos famosos
Meninos do Morumbi, moradores de favelas. Nunca
a faculdade me pareceu tão alegre e cheia de
vida como nesse dia. Repercutiram os tambores e
repercutiram os nossos corações! O barulho foi
imenso, mas era um barulho inteligente com
súbitas mudanças de ritmo, com disciplina, com
difíceis e silenciosíssimas interrupções, com
admirada obediência às ordens do jovem maestro.
Disso desejo registrar
o seguinte fato: vi pessoas que subiram a
escadaria e entraram na faculdade como se nada
de diferente estivesse acontecendo. Parecia não
estarem ouvindo os tambores! Esse foi um grande
ensinamento que se resume com poucas palavras:
tem gente que ouve e tem gente que não ouve os
tambores...
Com desafios e
conquistas, o tempo foi passando e eu comecei a
me aproximar da data da minha aposentadoria.
Pensei, como outros, que fosse parar de
trabalhar, que me dedicaria inteiramente a
alguns hobbies, a
escrever sobre minhas reminiscências e saudades,
à la
recherche
du
temps
perdu... Isso não
aconteceu.
A aposentadoria
não foi um ocaso na minha vida profissional;
foi, ao contrário, um amanhecer deslumbrante.
Atualmente faço parte da diretoria do Instituto
Histórico e Geográfico de São Paulo, o qual vem
gradativamente mudando o seu modo de ser, à
procura do século 21. Não me afastei da USP,
porque com ela vou trabalhar pelo convênio
acadêmico que estão por celebrar essas duas
instituições, o IHG/SP
e a nossa universidade. Continuo fazendo parte
da comissão de outorga do Prêmio
Mapfre para
professores (1998) e para alunos (1999, 2000) e
de que muito me orgulho, porque o prêmio foi
proposto e trazido para a USP por mim.
Estou levando a
experiência que adquiri na USP e em
universidades estrangeiras para outros cenários.
Nossa vida acadêmica é tão ampla, tão cheia de
oportunidades e de realizações, que, como
cidadãos, não poderíamos deixar de compartilhar
nossa experiência com outras pessoas e em outros
locais. É um dever cívico de quem ama a Pátria.
Outras coisas
interessantes poderiam ser acrescentadas, mas
fico por aqui. Meu trem acaba de chegar nesta
estação da minha vida. Estou alegremente de
partida.
Arrivederci!
*Nelly Martins Ferreira Candeias é
professora aposentada da Faculdade de Saúde
Pública, Presidente do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo e recém-eleita para a
Academia Paulista de História