O que me extasiava era a sua disposição,
a sua coragem, a sua
alegria,
sua simplicidade de
alma,
seu
amor pelo próximo, sua fé no Brasil.
Prof.
Goffredo da Silva
Telles Jr.
D. Olívia Guedes
Penteado nasceu em Campinas, no Largo da Matriz
Velha, em 12 de março de 1872. Era filha dos
Barões de Pìrapitingüy,
José Guedes de Souza, poderoso fazendeiro de
café no Município de
Mogi-Mirim, e de Dona Carolina Leopoldina
de Almeida e Souza. Genuinamente paulista, sua
descendência teve origem em Fernão Dias Pais
Leme por sucessão direta. A família liga-se
também a Amador Bueno, a Tibiriçá, o grande
cacique de Piratininga, e a João Ramalho. Dona
Olívia passou a infância na propriedade paterna,
na Fazenda da Barra, em
Mogi-Mirim, tendo estudado em casa com
professores particulares e, durante algum tempo,
no Colégio Bojanas.
Posteriormente, a família transferiu-se para São
Paulo, passando a residir na rua Ipiranga,
tornando-se o Barão de
Pirapitingüy grande proprietário e
capitalista. Aos desasseis
anos casou-se com seu primo, Ignácio Penteado,
do ramo dos Penteados de Campinas, que acabara
de regressar da Europa, onde permanecera por
vários anos em viagens de lazer e estudo.
Dona Olívia
ingressou no Instituto Histórico e Geográfico de
São Paulo no dia 6 de
maio de 1932, poucos dias antes de eclodir a
Revolução Constitucionalista, tendo sido a
décima mulher a tomar posse nessa entidade: “o
Sr. Presidente acentuou o brilho e imponência
daquela noite, por motivo da posse de três
ilustres representantes da intelectualidade
feminina paulista – Olívia Guedes Penteado, Ana
de Queiroz Teles Tibiriçá e Maria Xavier da
Silveira”.
Dona Olívia em 1932
Preocupada com as
condições das viúvas e órfãos de voluntários, D.
Olívia trabalhou intensamente durante a
Revolução de 1932, acompanhada por Carlota
Pereira de Queiroz,
que, graças a sua articulação e à de Pérola
Byington, viria a ser a primeira deputada
federal no Brasil. Prefeito de São Paulo durante
esse período, seu genro, Godofredo da Silva
Telles, assim se referiu à atuação de Dona
Olívia no período da Revolução
Constitucionalista.
“Durante o movimento constitucionalista de 1932,
a sua esclarecida vontade e a imperturbável
serenidade de ânimo que era o traço mais forte
de sua personalidade, desempenharam importante
papel: ela colaborou ativamente no trabalho de
todas as senhoras paulistas em prol da causa que
São Paulo defendia. Não poupou esforços nem
sacrifícios. Tomou parte em todas as iniciativas
femininas tendentes a minorar o sofrimento dos
que combatiam, socorrendo as famílias que aqui
haviam ficado e animando com sua confiança aos
combatentes que embarcavam
para a frente de combate. Mais tarde,
findo o movimento, quando todos os paulistas se
uniram pelo bem de São Paulo, para sufragar nas
urnas aqueles que deviam ser os portadores de
seu pensamento e da sua vontade na Assembléia
Constituinte, ela continuava, com a mesma
serenidade, no seu novo posto de animadora
cívica, trabalhando nas primeira linhas de Chapa
Única. Mas a energia batalhadora do seu coração
não ultrapassou a luta. Saiu dela sem
ressentimentos nem
ódio. Voltou a ser aquela que tinha sido a vida
inteira, sorridente e acolhedora, esquecida dos
adversários da época”.
Diz seu neto, Goffredo
da Silva Telles Jr.:
“Aqui lembrarei
apenas que os ideais aparentes do movimento
empolgaram a população – e que Olívia Penteado
se empenhou em servi-los, de corpo e alma.
Durante todo o tempo da luta, que foi um tempo
heróico, de sacrifícios e de privações, ela
assumiu o cargo de Diretora do Departamento de
Assistência Civil. Sem qualquer hesitação, doou
jóias valiosas, na ‘Campanha de Ouro para o
Brasil’, destinada a reforçar os fundos
necessários à manutenção das frentes de combate.
Depois, no ano seguinte, nas eleições gerais de
1933, minha avó lançou e apadrinhou a
candidatura de Carlota Pereira de Queiroz,
médica, à Assembléia Nacional Constituinte e ao
Congresso Nacional. Doutora Carlota foi a
primeira mulher a ser deputada federal no Brasil
“.
Para que não se
esqueça, parece-nos interessante reproduzir,
aqui, parte da bela oração proferida por D.
Olívia Guedes Penteado durante a Revolução
Constitucionalista:
Às Mulheres Brasileiras
“(...) Não há
terra como o nosso Brasil. Nós paulistas o
sabemos. E, portanto, quando tomamos armas
contra os opressores de nossa terra, sabemos e
sentimos que não estamos dando combate a nossa
pátria. Longe de nós ter qualquer rancor contra
os nossos irmãos dos outros Estados. A luta que
travamos é contra a opressão, contra o erro,
contra o crime. (...) Quem se bate pelo regime
da justiça, da liberdade e do direito, será
sempre apontado na história da nossa terra, como
o defensor da verdadeira, da suprema causa da
nacionalidade. Esta causa – vós já sabeis – é a
causa da Lei. Temos a certeza de que nossos
filhos, que ora seguem frementes de entusiasmo
sagrado, poderão em breve, ó brasileiras de
todos os estados, abraçar os vossos filhos, que,
também constitucionalistas, os esperam com a
mesma vibração, a fim de que, juntos, irmãos e
brasileiros, possam gritar a quarenta milhões de
brasileiros – Tendes agora a Lei! Viva o Brasil!”
A morte de Dona Olívia
Dona Olívia
faleceu no dia 9 de
junho de 1934, vítima de apendicite, após um mês
de penoso sofrimento. Foi assistida por sua
amiga, Carlota Pereira de Queiroz, e por Aluysio
de Castro, médico vindo especialmente do Rio de
Janeiro para acompanhá-la, e que assim se
expressou a respeito daquelas horas amargas:
“Há sempre no fim
de uma grande vida um grande exemplo. Os que
assistiram a Dona Olívia Penteado nas suas
derradeiras horas, puderam
contemplar, na fortaleza e na candura do seu
ânimo, alguma coisa grandiosa, como quando a
graça divina se reverbera na expressão humana”.
Seu esquife foi
carregado em mãos dos acompanhantes, que o
levaram pelas ruas de São Paulo. “Constitui uma
tocante e expressiva consagração
a homenagem que S.
Paulo prestou, na tarde de
ante-hontem, à memória de D. Olívia
Guedes Penteado, por
occasião de seu sepultamento” (O Estado
de São Paulo, 12 de junho de 1934,
Fallecimentos).
Recorda Goffredo da
Silva Telles Jr:
“Havia uma
silenciosa multidão na nossa rua, diante de
nossa casa. Quando saímos com o caixão e o
entregamos aos bombeiros, para que eles o
colocassem lá em cima, no carro, sentimos um
movimento do povo, uma aproximação compacta de
gente, em torno de nós. (...) E então vimos o
total inesperado. O povo silenciosamente se
assenhorou do
esquife embandeirado. Homens desconhecidos,
segurando as alças do féretro, puseram-se a
caminho. E o levaram, na força de seus braços,
pelas ruas de São Paulo, até a sepultura
distante, no Cemitério da Consolação. A multidão
anônima seguiu atrás. E dispersou ao fim do
enterro. Que povo era aquele? Eu não sei;
ninguém sabe, nem saberá jamais”.
Foi sepultada no
Cemitério da Consolação, na Rua 35, túmulo
1, ao lado de seu
marido. O túmulo é encimado por uma escultura de
Brecheret, “A descida da Cruz”, obra
adquirida por ela em Paris, no Salão do
Outono, em 1923. Logo após a sua morte,
Guilherme de Almeida, na Seção que mantinha em O
Estado de São Paulo, fez-lhe uma bela e sentida
homenagem:
“(...) Dona Olívia era o poema da vida. A idéia
da vida, o ritmo da vida e a beleza da vida
entrelaçavam-se, nela, tão essencialmente bem,
que ela impunha a vida, como um poema impõe a
verdade que defende, por menos verdadeira que
seja essa verdade. (...)
Ella apenas encontrou, no seu
apparente
desapparecimento,
uma nova forma de viver...”
Guy
Assim a relembrou Maria de Lourdes Teixeira:
“Essa figura nobilíssima de mulher, bela,
fidalga e ultracivilizada,
ficará em nossa história literária e artística
como uma das inteligências precursoras que
emergiram da sociedade “ancien
régime” para a
compreensão de um Brasil novo construído por uma
mentalidade nova”.
Dona Olívia foi
uma mulher excepcional, cujo talento e brilhante
atuação se refletem
em vários momentos da história da atuação cívica
e cultural no Brasil. Seu estilo de vida,
provocando encontros e desencontros, abriu um
espaço verdadeiramente comum aos homens e às
mulheres de seu tempo, fazendo com que a
igualdade dos direitos humanos e das
oportunidades, pelas quais lutava discretamente,
passassem a eliminar
a diferença das identidades que retardavam a
emancipação feminina. Jamais será esquecida
porque lutou contra os preconceitos do seu
tempo.
Foi uma
Mulher Paulista!
Bibliografia:
J. Rodrigues, A
mulher paulista no movimento pró-constituinte,
E.G. Revista dos Tribunais, 1933.
O Estado de São
Paulo/Domingo, 10 de
julho de 1934/página 8/Fallecimentos
O Estado de São
Paulo/terça-feira,
12 de junho de 1934/página 4/Fallecimentos
Almeida, Guilherme
de /sob o pseudônimo de Guy/Dona
Olívia/crônica/ O
Estado de São Paulo/ Domingo, 10 de junho de
1934/página 2,
A
sociedade
Dantas, Arruda,
Dona Olívia (Olívia Guedes Penteado), Sociedade
Impressora Pannartz,
São Paulo, 1975.
Dantas, Arruda,
Lembrança de Dona Olívia Guedes Penteado, Jornal
de São Paulo, Suplemento “Literatura & Arte, no.
29, 5 de março de
1950.
No tempo dos
modernistas; D. Olívia Penteado, a Senhora das
Artes. Denise Mattar. Organizadora. S. Paulo:
FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado, 2002.
Revista do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo,
vol. 38, pág. 251, 1934. Olívia Guedes Penteado,
Voto de pesar, por José Soares de Melo.
Artigo publicado no Boletim da Academia Paulista
de História, Ano XV-Nº
108, 2003
*Nelly Martins Ferreira Candeias é
professora aposentada da Faculdade de Saúde
Pública e Presidente do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo.