O mistério alegre e triste de quem chega e parte
Álvaro de Campos
D.Amélia Machado
de Coelho e Castro nasceu no Rio de Janeiro,
filha do Dr. Constantino Machado Coelho de
Castro e de D. Mariana
Barbosa de Assis Machado. Foi a sexta
mulher a ingressar no Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo,
em 5 de agosto de 1905, após Marie
Rennotte (1901),
Mary Robinson
Wright (1901) Júlia
Lopes de Almeida (1902),
Veridiana Valéria da Silva Prado (1902) e
Ibrantina
Cardona (1905).
Célebre por sua
beleza e elegância, D. Amélia foi considerada
uma das mais notáveis damas da corte no segundo
reinado. Um fato pitoresco,
que lhe diz respeito, envolveu o nome de
Pedro Luiz Pereira de Sousa, poeta, jornalista e
político de muito prestígio no Rio de Janeiro.
Conta-se que, numa recepção no Palácio Isabel,
Pedro Luiz valsava com
Amélia, futura Viscondessa de Cavalcanti,
quando, inesperadamente, entrou na Salão Nobre o
Imperador D.Pedro II. Na vertigem da valsa e
encantado com sua
parceira, Pedro Luiz fingiu não ter visto D.
Pedro II, tendo acenado à orquestra para que
continuasse a tocar, fato que não passou
despercebido ao Imperador. Meses depois, o nome
do jornalista e político foi lembrado para
ocupar importante
cargo, tendo sido imediatamente vetado pelo
monarca com esta frase irônica: “O Pedro Luiz é
um homem que ainda valsa”. Pedro
Luíz era parente de
Washington Luíz,
último presidente da República Velha.
Amélia casou-se
com o senador Diogo
Velho Cavalcanti de Albuquerque (1829 – 1899),
filho de Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque e
de Angela Sophia
Cavalcanti Pessoa. Bacharel em Direito
pela Faculdade de Direito de Olinda,
Diogo Velho foi deputado provincial, deputado
geral, Senador do Império pelo Rio Grande do
Norte e Ministro de Estado, tendo sido agraciado
com várias comendas. Pelos serviços prestados ao
Império, D. Pedro II
concedeu-lhe o título de “Visconde com honras de
grandeza”, por decreto imperial de 30 de maio de
1888. Os Viscondes de Cavalcanti, Diogo e Amélia,
foram co-proprietários do engenho Baixa
Verde, Comarca de Nazaré da Mata, em Pernambuco,
tendo vendido parte dessas terras a “The
Great
Western Co. of
Brazil Ltda. “,
necessária à construção da estrada de ferro
Nazaré-Timbaúba.
“Tudo ajudava
àquele casal para o sucesso social que o
assinalava, desde a inteligência do futuro
Visconde às finas graças e formosura de D.
Amélia Cavalcanti... O grande fulgor do Salão da
Viscondessa de Cavalcanti durou de 1875 a 1878,
período em que seu marido foi Ministro, mas,
depois disso, continuou a ser um dos mais
elegantes centros da
alta sociedade do Rio, às quintas e aos
domingos”.
Na fase final da
Monarquia, em 1889,
às vésperas da República, com o intuito de
prestar homenagem à dedicação e lealdade de
Diogo Velho, D. Pedro II nomeou-o Comissário do
Brasil junto à Exposição Universal em Paris.
Estabelecido o
regime republicano, os Viscondes preferiram
permanecer na França. O advento da República
interrompeu, assim, a carreira de um homem de
Estado que, aos cinqüenta anos, já havia
ocupado os mais importantes cargos
político – administrativos no Brasil, e que
teve o comovente mérito de jamais abandonar seu
amigo, o Imperador destronado.
Ao adoecer, com
grave prognóstico, o Visconde expressou o desejo
de regressar ao
Brasil, tendo falecido em Juiz de Fora, Minas
Gerais, em junho de 1899. Pouco se disse dele
na época, apenas algumas sentidas orações
fúnebres por parte daqueles que tiveram o
privilégio de privar de sua intimidade. Convinha
à conspiração republicana e aos adeptos do
sistema vigente apagar a memória desse grande
estadista da monarquia. Viúva, a
Viscondessa decidiu voltar para a França, onde
residiu durante 26
anos.
Catálogo de
Medalhas
Em 1889, a
Viscondessa de Cavalcanti publicou no Rio de
Janeiro, o
“Catálogo das Medalhas Brasileiras e das
Estrangeiras Referentes ao Brasil”, de sua
coleção particular. Foram impressos 25
exemplares, 5 em
papel Japão e 20 em papel de Holanda. Essa rara
publicação descreve 115 medalhas, cujas datas
vão de 1596 a 1888. Em 1910, uma segunda edição
aumentada e ilustrada, com tiragem
de 100 exemplares, foi publicada em
Paris. Nela, descrevem-se 294 medalhas, com
datas de 1596 a 1903, incluindo-se o período do
Brasil República. Lê-se na segunda edição:
“Les
médailles
ne
sont
pas
seulement
des
objects d’art, ce
sont
aussi
des
monuments
historiques.
Les
événements y
sont
marqués
plus
sûrement que
dans
les livres,
et
leur
témoignage,
sans
être
irrécusable,
est
plus
naif
et
plus
authentique,
plus
sûr que
celui de l’histoire
parce
qu’il
ne
faut
qu’un
instant
et
un
trait de
plume
pour
écrire une
erreur ou
un
mensonge,
tandis
qu´íl
en
coûte
tant de
peines
et de
jours
pour
les
modeler
et
les
fondre,
encore
pour
les
graver!
Chaque
medaille
est
un
abrégé de
la
petite
histoire
écrite
en
marge de
la grande,
et
qui
est
celle
des
individualités
marquantes
dont
les
traits
sont
désormais
transmis à
la
posterité par
la
main
du
sculpteur ou
du
graveur (Charles
Blanc)”.
As medalhas estão
descritas em termos dos seguintes períodos
históricos: Brasil Colonial, Ocupação Holandesa;
Brasil Colonial, Domínio Português; Brasil
Império, Primeiro Reinado – D. Pedro I; Segundo
Reinado – D. Pedro II;
Brasil República, este incluído na
segunda edição. Algumas classificações
apresentam subtítulos temáticos.
As medalhas da coleção
É interessante
mencionar as duas medalhas mais antigas
da coleção da Viscondessa, referentes ao
Brasil Colonial durante a ocupação holandesa,
cunhadas no ano de 1596. Trata-se da “SIDERE
PROFICIANT DEXTRO NEPTUNIA REGNA”, a qual
diz respeito às expedições comerciais dos
holandeses. Em guerra contra o rei da Espanha e
Portugal, estes
organizaram uma expedição marítima à América
portuguesa para fazer um carregamento de pau
brasil, com
conivência de portugueses da
Colonia, que
desconsideraram as severas ordens do Reino.
Nesse mesmo ano, a
“NUNC SPE NUNC METU” comemorou a
esquipação da
primeira frota holandesa destinada ao Brasil.
A Viscondessa
possuía, também, a
primeira medalha referente ao Brasil Colonial,
no domínio português. Trata-se da
“RENÉ DUGUAY-TROUIN”, cujo nome
relaciona-se à história do Brasil, pela
expedição realizada ao Rio de Janeiro. Perpetua
a memória de sete
naus de guerra, oito fragatas e dos 5.684 homens
que conquistaram a cidade em 1711.
As medalhas sobre
Portugal começaram a
surgir a partir do ano de 1800. Em nota de
rodapé, no Catálogo, menciona-se o nome de
Zeferino Ferrez,
como a primeira pessoa a introduzir a gravura
de medalhas no Brasil, em 1820.
A propósito dos
valiosos catálogos publicados pela Viscondessa,
no volume XV da
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de
São Paulo, 1910, pág. 455, lê-se: “ A
Exma. Sra.
Viscondessa de Cavalcanti ofereceu sua obra em
dois volumes sob o título Catálogo de Medalhas
Brasileiras...” Infelizmente, os dois volumes
oferecidos pela Viscondessa ao Instituto não
foram encontrados.
Museu Mariano Procópio
Sala Viscondessa de Cavalcanti
O Museu
Mariano Procópio, em Juiz de Fora, o
primeiro a ser criado em Minas Gerais, marco de
pioneirismo da cidade, é obra de Alfredo
Ferreira Lage
(1865-1944). Primo de Amélia Cavalcanti,
Alfredo era filho de Mariano Procópio
Ferreira Lage,
construtor da primeira estrada de rodagem
macadamizada no
Brasil, no período de 1856 a 1861, ligando Juiz
de Fora a Petrópolis.
A Sala da
Viscondessa de Cavalcanti, nesse Museu, possui
95 peças. Da coleção doada,
fazem parte moedas greco-romanas com a
efígie do imperador Júlio César e raros
exemplares de medalhas cunhadas na Europa,
referentes à ocupação holandesa na Bahia, em
1624, e em Pernambuco em 1631. Os principais
acontecimentos no Brasil - com destaque para os
períodos colonial e imperial - estão retratados
em moedas e medalhas, cunhadas em ouro, prata e
bronze, nessa magnífica coleção. São peças
referentes à aclamação de Dom João VI, como rei
de Portugal, Brasil e Algarves (1820), à chegada
de Dona Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, ao
Brasil (1817), e à coroação de Dom Pedro II
(1841).
Além das medalhas
que pertenceram à Viscondessa,
encontra - se nessa sala um curioso
objeto pessoal. Trata-se de um
leque, de madeira e papel, com 102 cm de
abertura por 35 cm de raio, contendo 69
mensagens escritas por personalidades
brasileiras e estrangeiras durante um período de
55 anos. O primeiro a assinar esse leque foi Dom
Pedro II, em 1890. Nele se encontram mensagens
da Princesa Isabel, de
Tommaso Salvini,
Carlos Gomes, Alberto Santos
Dumond, Alexandre
Dumas Filho, Machado
de Assis, Eça de Queiroz, Getúlio Vargas e
outros. A Viscondessa assinou seu leque em
1945, um ano antes de sua morte. Devidamente
protegido, o leque permite observar as
assinaturas em ambos
os lados.
Museu Nacional de Belas Artes
O riquíssimo
acervo do Museu Nacional de Belas Artes
originou-se da pequena coleção de 54 telas,
trazidas para o Brasil pela Missão Artística
Francesa, em 1816,
às quais logo se acrescentaram outras obras de
propriedade do Dom João VI. A coleção compõem-se
primordialmente de pinturas brasileiras do
século XIX e início
do século XX., muito
embora haja, também, uma pequena, mas
representativa, coleção de pintura estrangeira,
com quadros da Escola Barroca italiana e telas
de Eugène
Boudin.
O conjunto de
pintura brasileira reúne obras de Rodolfo
Amoedo, Antonio da Silva Parreiras,
Víctor Meireles,
Henrique Bernardelli,
Eliseu Visconti, Dario
Vilares Barbosa,
João Zeferino da Costa, Pedro Américo, Décio
Vilares e Almeida
Júnior. Aí se encontram obras-primas, como
O Último Tamoio,
de Amoedo,
Primeira
Missa no Brasil e
Batalha de
Guararapes, de Meireles,
Maternidade,
de Bernardelli,
Gioventù,
de Visconti,
Óbulo
da Viúva, de João Zeferino da Costa,
e A Batalha
do Avaí,
de Pedro Américo.
Nesse Museu,
encontra-se o retrato da Viscondessa de
Cavalcanti, pintado por
Léon Bonnat
(1833-1922), em 1889, e doado no ano de 1926.
O Instituto
Histórico e Geográfico
Paraíbano possui retratos a óleo da
Viscondessa de Cavalcanti e de seu marido, ambos
da autoria de
Labatut, os quais
haviam pertencido anteriormente à D. Virgínia
Cavalcanti de Albuquerque, irmã do Visconde.
Este breve relato
mostra alguns fatos relevantes
da vida de Amélia Machado de Coelho e
Castro, cuja presença marcou profundamente a
sociedade brasileira pelo seu vivíssimo talento,
por sua beleza e generosidade. Estrela que não
se apaga, a
Viscondessa de Cavalcanti merece ser lembrada
pelo muito que fez pela cultura de nosso País.
A Snra. Viscondessa
de Cavalcanti não cedeu nunca
de seu império de distinção, elegância e
formosura.
E, ainda hoje, é pena que
apareça tão pouco,
porque
reinaria ainda.
Wanderley Pinho, 1942
Bibliografia
Barata, Almeida
C. E. de, e Cunha Bueno, A.H., Dicionário das
Famílias Brasileiras, Ibero América, s.d.
Blake,
A. V. Alves Sacramento, Dicionário Bibliográfico
Brasileiro. Edição do Conselho Federal de
Cultura. Guanabara, 1970.
Catálogo das
medalhas brazileiras
e das estrangeiras referentes ao
Brazil, da
colleção numismática
pertencente à Viscondessa de Cavalcanti. 2ª
edição augmentada e
illustrada,
Pariz, 1910.
Collecção
Numismática Brazílica
pertencente à Viscondessa de Cavalcanti.
Catálogo das medalhas
brazileiras e das estrangeiras referentes
ao Brazil, 1889.
Pinho, W., Salões
e damas do segundo reinado, com desenhos de J.
Wasth Rodrigues,
Livraria Martins Editora
São Paulo, 1942.
Revista do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo,
vol. X , p. 588, 1905.
Revista do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo,
vol. XV, p. 455, 1910.
Taunay, Affonso de
E., O Senado do Império, Senado Federal, DF,
1978.
Veiga Júnior, J.,
Os Viscondes de Cavalcanti, Revista do Instituto
Histórico e Geográfico
Paraíbano. Palestra realizada em sessão
de 22 de agosto de 1937, p. 85- 92.
*Nelly Martins Ferreira Candeias é
professora aposentada da Faculdade de Saúde
Pública e Presidente do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo.