A LÍNGUA PORTUGUESA NA NOVA TERMINOLOGIA CIENTÍFICA

                                                           Prof. Dr. José Alberto Neves Candeias*
 

           A terminologia científica, surgida nos últimos dez anos, tem criado situações frustrantes, em termos do encontro de um significado, que terá de ser óbvio para os não iniciados e lógico e correto para os iniciados.

            A evolução dos conhecimentos teóricos das aplicações práticas, no campo da genética molecular, tem sido tão extraordinária que foi necessário criar uma terminologia totalmente nova, conferindo-lhe significado bem definido. Ora é aqui que a ausência de uma linguagem comum a Portugal e Brasil pode redundar em situações lamentáveis. E se na procura desta terminologia não estiverem presentes especialistas brasileiros e portugueses, os resultados poderão ser catastróficos, em termos do complicado processo da comunicação científica. É bom não esquecermos que existem mais de seis mil termos, de origem recente, já perfeitamente definidos na língua inglesa. Surge, então, a tarefa, árdua tarefa, de fazer, ou não conversão para a língua portuguesa, definindo seu significado. A título de mero exemplo, passamos a mencionar alguns termos, para cuja tradução a comunhão de esforços dos cientistas de ambos os países precisa estar presente: acceptor splicing site, beta-pleated sheet, bobbed, shotgun cloning, lampbruch. Esta relação poderia ser ampliada, o que, naturalmente, seria, de sobremaneira, enfadonho. Repetimos um alerta já dado, “...na falta de vocabulário correspondente, comum aos dois países, os brasileiros se vejam na circunstância de usar palavras tão tecnificadas que só os especialistas da área serão capazes de entender”. E não é difícil de prever que o mesmo venha a acontecer com os especialistas portugueses. E como nenhum deles, por certo, aceitará estar errado, cada um estará no pleno direito de seguir o caminho que lhe pareça melhor, até porque, por enquanto, não existe um padrão de ortografia uniforme. O Acordo Ortográfico, poderia talvez, levar àquela uniformização. Mas não se deve esquecer que delitos de linguagem cometidos por ambos os lados e mantidos por amplo tempo, acabarão por fazer, permanentemente, parte do escrever e do falar, sendo de muito difícil cura. Configura-se assim mais um elemento complicador na feitura do tão almejado vocabulário técnico-científico a ser aceito pelos dois países.

            Por outro lado, as variações da língua portuguesa de um país para o outro não podem ser desprezadas, particularmente pela “fisionomia especialíssima da variedade brasileira”. Mas, mesmo que não sejam tantas as variações, não há como considerar a necessidade de coligir uma terminologia luso-brasileira, cuja consecução está se tornando mais do que imperiosa. Para isto é fundamental que existam íntimas afinidades a facilitar a penetração, em ambos os sentidos, de pontos de vista tidos como divergentes. É preciso descobrir um princípio unificador que seja aceito com vistas a chegar-se a um verdadeiro trabalho de síntese. É necessário haver uma eficiente comunicação, capaz de dar origem a influências mútuas, de que venha a resultar a aceitação dos termos científicos mais adequados e melhor entendidos por ambas as partes. Naturalmente, exige-se dos participantes brasileiros e portugueses que tenham um espírito moderno, totalmente desembaraçado das teias-de-aranha do conservantismo, livres das peias do purismo e capazes de compreender que o vocabulário pode até sofrer variações, por surgirem novas necessidades de expressão. Naturalmente, tais necessidades não devem permitir que se destruam os foros e regalias do idioma português, que longe de se depauperar,  melhora. Não devem permitir que se aceitem verdadeiros aleijões vocabulares e gramaticais. O que é preciso é atalhar danos de tal natureza com seriedade e consciência, para poder atender ao momento em que, repetimos, cientistas portugueses e brasileiros se empenhem, com dignidade, no preparo de um vocabulário correto e que atenda às exigências da Ciência e da Tecnologia, em ambos os países. Tal empenho deve, obviamente, atender àquela regra fundamental de que as nomenclaturas devem ter, internacionalmente, semelhanças de língua para língua: “vocábulos reconhecíveis pelo alicerce formal e cada um com o mesmo significado”. É claro que tal uniformização de vocábulos técnicos vai obrigar, por vezes, a que se aceitem erros de linguagem internacionalmente consagrados. Mas contra esta ocorrência pouco podemos fazer. Com o que devemos nos preocupar é com a construção de uma uniformidade expurgada de incoerências, erros e complexidades inúteis, mesmo que tenhamos de aceitar que, com certa frequência, teremos de ir atrás de terminologias estrangeiras, vestidas à portuguesa!

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*José Alberto Neves Candeias nasceu em Vila Real, Trás-os-Montes, Portugal. É professor titular do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, SP – Brasil. Trabalhou, em Londres, entre 1965 e 1970, em um laboratório de vírus das Centrais de Saúde Pública. Estagiou como pesquisador convidado em outros laboratórios de pesquisa na Inglaterra, Estados Unidos, Japão, Argentina e Brasil, onde fixou residência definitiva. Orientou dezenas de alunos de pós-graduação, e publicou mais de uma centena de trabalhos científicos no Brasil e Exterior.

  

 
 

 

     

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