A GRANDE FAMÍLIA

Info. Históricas


NICOLAU PEREIRA DE CAMPOS VERGUEIRO

EM SÃO PAULO, O PRINCÍPIO DE MUITAS COISAS

Aos 25 anos de idade, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, cidadão
português, nascido em Val-da-Porca, Província de Tráz-os-Montes, resolveu
tentar a sorte no Brasil. Não era rico, mas tivera educação esmerada e,
com o diploma de Doutor em Leis, que conseguira em Coimbra,
possuia o suficiente para estabelecer uma banca de advogado na Colônia.
Assim, em 1803, Vergueiro chegava a São Paulo, onde passaria
a dividir os serviços jurídicos com os irmãos Arouche, Manuel
Eufrásio de Azevedo Marques e Manuel Joaquim Ornellas. Os cinco eram os
únicos advogados da vila, que então contava com cerca de 20 mil
habitantes, inclusive 6 mil escravos.
Nesta pequena povoação, com suas casas de taipa, pintadas de branco
e com dois pavimentos, sacadas de grades, ruas asseadas, onde o uso de
vacina banira as epidemias de varíola --- flagelo dos centros urbanos
coloniais ---, vergueiro foi tomando contato com os hábitos da sociedade
paulista. A alimentação era farta: pela manhã, o café com pão e manteiga;
ao entardecer, o chá. No almoço, muita verdura, carne de porco ou vaca,
batata-doce, cará, mandioca, frango assado. As festas e jantares de
cerimônia eram frequentes, e neles serviam-se por vezes cinquenta pratos
diversos, regados com bom vinho. Após os doces e o café, começavam as
danças, e os convidados tocavam, cantavam, ou jogavam cartas.
Foi num desses “chás paulistanos” que Vergueiro conheceu Maria
Angélica de Vasconcelos, cuja aparência e cultura muito impressionaram.
Passados alguns meses, estava casado. Para instalar-se com a esposa,
Vergueiro gastou 700 mil réis, comprando um amplo sobrado na Rua Direita.
Nesta capital, a não ser 1813 que morou à rua do Ouvidor número 9, nos
demais anos teve sempre a sua residência à rua Direita, número 14. Foi
proprietário nesta rua de 2 moradas, uma assobradada, a comprada em 1806
por 700 mil réis do Sargento-mór Antonio Silveira Peixoto e outra de
casas térreas, de dois lances, adquirida em 1842 do Capitão Antonio
Bernardo Bueno da Veiga, por dois contos de réis.
E pôs-se a advogar. Competente, idôneo e respeitado, logo vieram os
cargos públicos: promotor dos Resíduos (1806), juiz das Sesmarias da
Província (1811), juiz ordinário de São Paulo (1811), vereador (1813).
Paralelamente, seu espírito irrequieto desenvolvia outros interesses.

MUITO CEDO, COMEÇA A FORTUNA

Com o casamento, Vergueiro unira-se a uma família de prestígio,
influência e fortuna. Ele próprio, com sua próspera banca de advogado e o
salário dos cargos que exercia, ganhava o suficiente para ir formando
suas economias. Em 1807, recebeu uma sesmaria na região do rio
Piracicaba, onde iniciou a construção do Engenho do Limoeiro. O exercício
das funções de juiz das Sesmarias ia-lhe fornecendo conhecimentos e
experiência dos negócios da lavoura. Em 1814, comprou outro terreno, o
Monjolinho, situado nos Campos de Araraquara (hoje São Carlos), onde
introduziu uma criação de gado.
A agricultura e a pecuária davam-lhe prazer e foram-se tornando suas
atividades prediletas. Desenvolveu um projeto de constituir uma grande
empresa agrária, e em 1816 encontrou o homem certo para financia-la: o
Brigadeiro Luiz Antonio de Sousa, que vinha sendo o pioneiro do
desenvolvimento da economia paulista. Com efeito, ele introduzira na
Província os rudimentos de um sistema de crédito bancário. Quando, no
princípio do século, começara a pagar juros aos que guardavam as
economias nos seus cofres, entre agradecidos e espantados, os paulistas
recompensaram-no com presentes: galinhas, garrafões de vinhos, tachos de
marmelada. Antes dele, desconhecia-se em São Paulo a aplicação de
capital, e sua atividade valera-lhe rápida fortuna.
A firma Vergueiro & Sousa começou com as duas fazendas e o
financiamento proporcionado pelo banqueiro. Vergueiro era o administrador
e mudou-se para Piracicaba, onde a nova e florescente sociedade iria
adquirir mais terras: o Engenho de Monte Alegre, a Fazenda do Taquaral e
a grande Sesmaria do Morro Azul. Esta associação teve vida curta; pois em
1819 morria o Brigadeiro Luiz Antonio e Vergueiro ficou à testa do
negócio. Dedicara-se de início à pecuária e ao fabrico de açucar, mas
pouco a pouco os canaviais iam desaparecendo por um novo produto, que
Vergueiro acreditava, pudesse proporcionar bons lucros: o café.
Mas o Brigadeiro Luiz Antonio deixara herdeiros, e era necessário
repartir com eles os lucros da sociedade, que em nove anos de existência
duplicara o valor de seus bens de 26 para 58 contos. Em 1825, Vergueiro
ajustou com José da Costa Carvalho (deputado, futuro regente do Império,
Marquês de Monte Alegre), que se casara com a viúva do Brigadeiro, a
dissolução da firma. Na partilha, couberam a Vergueiro as terras do Morro
Azul.


UMA INTRODUÇÃO À POLÍTICA

Como quase todos aqueles que estudaram em Coimbra nos fins do século
XVIII e princípios do XIX, Vergueiro não acreditava na origem divina dos
reis e não considerava o regime absolutista o mais conveniente. Nas
discussões domésticas, não ia tão longe como sua esposa, Maria Angélica,
republicana fervorosa, mas era um liberal convicto. No entanto, até 1821,
suas concepções de governo serviam apenas para animar os debates com o
círculo de amigos.
Foi a Revolução do Porto, em 1820, que o iniciou na política. Os
liberais portuguêses haviam conseguido a convocação de uma Assembléia
Constituinte. O Rei Dom João VI fora obrigado a jurar uma Constituição
que ainda seria elaborada e a retirar-se do Brasil, onde se encontrava,
voltando a Portugal.
Reunidos na comarca de Itú, os liberais da região não esperaram por
novas deliberações reais. Sob a liderança de Vergueiro, Francisco de
Paula Sousa e Álvares Machado, juraram a futura Carta, solidarizando-se
com a rebelião portuguêsa.
Em menos de um mes, as demais comarcas da província já haviam
imitado a atitude dos ituanos, e em São Paulo (23 de junho de 1821)
escolhia-se o Governo provisório da Província. Embora sem estar presente
a esse ato, Vergueiro foi lembrado e eleito representante da agricultura
na Junta Governativa.
Para completar a transformação do Reino Unido de Portugal, Brasil e
Algarves, passando do absolutismo à monarquia constitucional, só faltava
elaborar a Constituição. Em Portugal, os deputados já tinham sido eleitos
e reuniam-se as Cortes em Lisboa. Faltavam os representantes do Brasil,
que seriam escolhidos à razão de um para cada 30 mil habitantes,
excluídos os escravos.
O processo eleitoral era complexo e demorado: primeiro, os moradores
de cada freguesia reuniam-se para escolher os compromissários, que num
segundo estágio iam à sede da paróquia para eleger os eleitores da
paróquia. Depois, nova reunião, agora na sede da comarca, onde os
eleitores paroquiais designavam os eleitores da comarca. São Paulo
dividia-se em tres comarcas: Itú, Paranaguá e São Paulo, e no último
episódio das eleições, reuniam-se todos na capital da Província para,
afinal, eleger os deputados.
Em São Paulo, como representantes de Itú, Vergueiro, Paula Sousa e
Feijó foram eleitos deputados. Vergueiro foi o segundo mais votado da
província, superado apenas por Antonio Carlos de Andrada. Sua carreira
política ia-se fazendo com a mesma rapidez e brilho que caracterizaram
seus empreendimentos anteriores. O próprio José Bonifácio, ao justificar
o fato de não haver votado em Vergueiro, disse-lhe: "Sou franco, não voto
no senhor porque fará muita falta ao Governo".
Realmente, a eleição dos deputados desfalcaria a Junta Governativa
de São Paulo, de alguns de seus liberais mais destacados.

NAS CORTES, A DISILUSÃO

Depois de uma escala no Rio de Janeiro, onde os deputados paulistas
avistaram-se com o príncipe regente, iniciaram a travessia do Atlântico,
que levou 84 dias. Chegaram a Lisboa, no dia 5 de fevereiro de 1822, tão
fatigados pelo desconfôrto da viagem --- na qual até as provisões haviam
escasseado --- que o Padre Diogo Antonio Feijó, de saúde frágil, teve que
repousar por vários dias.
A bancada das províncias brasileiras deveria somar 76 deputados, mas
na realidade só haviam sido eleitos 72, muitos dos quais não seguiram
para Lisboa. Houve mesmo uma bancada inteira, a de Minas Gerais, que,
sentindo estar próxima a separação do Brasil, julgou desnecessária
empreender a longa viagem. Assim, os 46 deputados brasileiros enviados às
Cortes estavam em flagrante minoria diante dos portuguêses, que
totalizavam mais de uma centena.
Os brasileiros não eram ingênuos. O próprio Vergueiro, ao jurar as
bases da Constituição, havia declarado que só o fazia porque “na
obrigatoriedade do juramento estava implícito o direito dos povos de
recusá-la”, se assim lhe parecesse melhor. Sabiam que debates acalorados
e controvérsias difíceis os esperavam em Lisboa. Entretanto, não previram
a hostilidade com que foram recebidos. Os constituintes portuguêses
estavam dispostos a retirar do Brasil os foros de igualdade, que havia
recebido com a permanência da Corte de Dom João VI no Rio de Janeiro.
Para impingir esse retrocesso aos deputados brasileiros,
pareceu-lhes que a melhor tática seria a da intimidação.
De todos os representantes, apenas a bancada fluminense apoiou as
teses de Lisboa. Entre os demais, contavam-se revolucionários
experientes, que tiveram participação nos diversos movimentos
emancipacionistas. A Bahia mandava veteranos da inconfidência de 1798,
como Cipriano Barata, Lino Coutinho e Agostinho Gomes. Pernambuco
fazia-se representar pelos heróis de 1817: Muniz Tavares, Félix Tavares
de Lira, Domingos de Aguiar Pires Ferreira. Pelo Ceará, um revolucionário
de tendência republicana: José Martiniano de Alencar.
Desde o princípio surgiram atritos entre os parlamentares
portuguêses e brasileiros. A bancada paulista, que tivera ocasião de
debater preliminarmente os problemas e havia elaborado Instruções,
redigidas por José Bonifácio, e escritas para o comportamento de seus
membros, assumiu um papel importante. Sem participar do ceticismo dos
republicanos, procurava salvar a união Brasil-Portugal.
Nesse trabalho destacaram-se Antonio Carlos de Andrada e Nicolau de
Campos Vergueiro. Mas, inútilmente o representante de Itú advertia as
Cortes:
--- A crise em que nos achamos é muito importante. Temos que
escolher entre as vantagens da união e os horrores da guerra civil. Só a
generosidade, a franqueza e tranquila prudência nos podem conduzir à
primeira; e todos os outros caminhos vão dar à segunda. Se empregamos a
força, a guerra civil está declarada... Sirvam-se de exemplo as
desgraças das províncias americanas espanholas... O Brasil, convidado à
união por muitas analogias e antigos hábitos, conhece as grandes
vantagens que dela resultam, o que deseja cordialmente, contando que não
se degrade de sua dignidade, nem sacrifique seus interêsses sem
reciprocidade...
As interveções de Vergueiro eram recebidas com indignação ou
zombaria. Por ter nascido português, chamavam-no de traidor. Não
compreendiam que ele procurava salvar a união do dois países, cada dia
mais frágil e difícel. Ignorando seus apelos, as Cortes resolveram enviar
tropas para
a Bahia, Rio de janeiro e Pernambuco, a fim de obrigar o cumprimento das
decisões que vinham sendo tomadas, que, por não corresponderem aos
interêsses das províncias brasileiras, eram sistemáticamente
desobedecidas. Diante disso, Vergueiro fez um apelo:
--- Se a massa geral do Brasil é constitucional, se a tropa não era
para sujeitar o Brasil, como se diz, mas reprimir os partidos, que na
verdade são coisa nenhuma, parece que deviam ser atendidas as
representações feitas pelo legítimo orgão dessa massa geral (as Juntas de
Governo) que não a pede, antes é contra a sua remessa.
Nada adiantou. A 15 de setembro, os deputados reuniram-se para votar
a Cosntituição, que Antonio Carlos considerou vergonhosa para o Brasil.
Vergueiro, Feijó, Antonio Carlos, entre outros, recusaram-se a assinar o
documento. Muitos deputados, desiludidos, abandonaram as Cortes.
--- O Brasil está pronto a unir-se a Portugal, mas não segundo a
marcha que leva o Congresso.
As palavras de Vergueiro receberam estrondosas vaias; seus
discursos, censurados, apareciam truncados nos jornais de Lisboa. Mas, no
Brasil, Dom Pedro proclamara a Independência.

DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA, OUTRA CONSTITUINTE

Ao contrário dos demais parlamentares brasileiros, Vergueiro não se
preocupou em regressar imediatamente ao Brasil. Primeiro viajou para o
Norte de Portugal, onde reencontrou seu pai e o resto da família. Só
chegou ao Rio de Janeiro no dia 27 de julho de 1823.
Na sua ausência, instalara-se a Constituinte brasileira. Embora
longe, fora mais de uma vez eleito deputado, merecendo a maior votação
dada a um representante paulista. Tivera 276 votos, superando Antonio
Carlos, que obteve 254, e José Bonifácio que recebeu 125. Seu prestígio
já transcedera os limites de Itú, e grande parte da sua votação procedia
de Taubaté e da capital.
Para cumprir seu mandato, transferiu residência para o Rio de
Janeiro, sem desfazer-se das propriedades que possuia no interior de São
Paulo. Participando dos trabalhos da Assembléia, apresentou vários
projetos que versavam sobre a educação pública, naturalização de
estrangeiros, liberdade de imprensa. Quanto ao preparo da Constituição,
preocupava-se em adotar o regime federalista, que a seu ver não deveria
ser tão radical como nos Estados Unidos, mas antes "devia dar
independência às diversas seções, conservando a unidade do todo".
Uma das discussões fundamentais envolvia o próprio conceito de
liberdade. O Parlamento não chegava a uma decisão sobre os direitos e
deveres do cidadão. Uns temiam o que chamavam de “excesso de liberdade”,
que na sua opinião acabaria conduzindo à anarquia. Outros preocupavam-se
em garantir tais liberdades, sem o que o Governo poderia degenerar numa
autocracia. Diante do impasse, Vergueiro assumiu uma postura prática:
--- Porventura alguém receou que a liberdade pessoal se tornasse no
sentido absoluto uma liberdade ilimitada? Certamente que não. Pois o
mesmo digo da liberdade religiosa, da liberdade de imprensa, etc.
Enumerem-se, por ora, os direitos, e depois veremos com que amplitude se
gozam.
Mas ainda dessa vez não caberia à Assembléia decidir. A grita dos
liberais extremados contra o imperador, a luta da Maçonaria nos
bastidores e a ação dos Andradas, que se haviam indisposto com Pedro I,
levaram o soberano a decretar, a 12 novembro de 1823, a dissolução da
Constituinte. Ao ato seguiu-se a prisão dos deputados tidos como
perigosos. Vergueiro, juntamente com José Bonifácio, Antonio Carlos,
Martim Francisco, José Joaquim da Rocha, Francisco Acayaba de Montezuma e
outros, foram levados para a Fortaleza de Santa Cruz.

DAS MANEIRAS PARA SE CHEGAR A SENADOR

Se houve disputas pelo poder, Vergueiro sempre se manteve afastado
delas. Não conspirou contra o Govêrno, nem tinha ambições pessoais.
Ninguém entendeu as razões da sua prisão, que parecia mais uma
precipitação ou engano do Govêrno. E logo inventaram diálogo irônico:
“Por que Vergueiro foi preso? Porque estava solto. Mas se agora vão
soltá-lo. É porque estava preso”.
A dissolução da Constituinte e a posterior outorga imperial de uma
Constiuição ao País colocaram os liberais moderados, como Vergueiro, numa
situação difícil: ou rejeitavam o documento, passando a propugnar pela
república --- tal qual fizeram os revolucionários da Confederação do
Equador ---, ou aceitavam a Carta, engolindo o fato de não ter sido
elaborada pelos deputados regularmente eleitos.
--- Aceitei a Consituição: fiz mais, persuadi que se aceitasse e se
jurasse, mas foi em razão da circunstância, e não por impulso ou por
entusiasmo ---, contaria Vergueiro mais tarde. Com isso, pode conservar
seus direitos políticos e mais uma vez ser eleito para a Câmara dos
Deputados, onde participou de várias comissões e assíduamente se
inscreveu na lista de oradores.
Vergueiro permaneceu na Câmara até 1828. Quatro anos antes, duas
províncias --- São Paulo e Minas Gerais --- haviam-no incluido em suas
listas para o cargo de senador. Contudo, na escolha dos senadores, a
última palavra cabia ao imperador. Este designava o nome da sua
preferência a partir da lista de tres nomes que lhe era apresentada, e
Vergueiro, apesar da grande votação, não foi indicado.
A consequência prática do processo eleitoral para o Senado era que
sua composição restringia-se aos indivíduos que gozavam de simpatia do
imperador, permanecendo sempre um orgão dócil, submisso aos desejos do
Executivo. Além disso, a função de senador era vitalícia.
A inatacável honestidade política de Vergueiro, a par do grande
prestígio que o fizera sempre um dos parlamentares mais votados,
dar-lhe-ia, no entanto, condições para romper as barreiras e ingressar no
Senado. Aliás, teve o previlégio de ser um dos primeiros expoentes
liberais a penetrar naquele refúgio de conservadores. Em 1828, tamanha
era a sua reputação que, estando doente, havia jornais ocupados em
publicar diáriamente seus boletins médicos. E foi no leito que recebeu de
Dom Pedro sua nomeação de senador por Minas Gerais. Um jornal da época, o
Astro de Minas, assim se referiu à sua escolha: “O Sr. Vergueiro, sem
empregos, sem dependências, sem subôrno, circundado só de seu ilustre
nome e adorado pelos seus serviços ao Brasil, obteve a honra da eleição”.
Mais cético, o Farol Paulistano escrevia: “Lucrará a Nação Brasileira com
a passagem deste digno varão da Câmara dos Deputados para a Câmara dos
Senadores? O Senado é composto em grande parte de homens do velho regime,
de homens que ainda estão lucrando com os abusos e que, por consequência,
afetando muita prudência nas reformas, querem alongar a época suspirada
da queda dos ditos abusos e da dominação de seus mesquinhos interêsses...
A Câmara dos Deputados perde um homem de valor...ao mesmo tempo que é
duvidoso se no Senado poderá, ao menos por ora, fazer os mesmos serviços
que fazia na sua antiga Câmara...”

SE O REI SE FOI, VIVA O REI

Em 1831, a crise de autoridade entre o Imperador e o Congresso
atingia o seu clímax. Dom Pedro era acusado de praticar o despotismo e
favorecer os portuguêses junto ao Govêrno. Os atritos cada vez mais
ferquentes entre brasileiros e reinóis acabaram forçando o soberano, que
perdera popularidade, a aceitar um Ministério liberal, empossado a 20 de
março. Mas a situação fugia-lhe ao controle. Tentou retoma-lo, nomeando a
5 de abril, um Gabinete de sua confiança, composto de antigos
absolutistas. Os liberais saíram às ruas, a revolução era eminente.
Dom Pedro tentou, em última solução: compor novo Ministério. Para
isso precisava de um homem em quem pudesse confiar, mas que tivesse
prestígio suficiente junto ao povo, evitando, assim, que o pensamento
republicano continuasse a se propagar. Mandou chamar o político mais
popular do Império, pois só ele poderia salvar-lhe o trono e impedir a
rebelião. Mandou chamar Nicolau Pereira de Campos Vergueiro.
Os emissários imperiais vasculharam todo o Rio de Janeiro.
Procuraram-no no Parlamento, em casa, na residência dos amigos, nas
chácaras próximas. Vergueiro não foi encontrado, e o povo e a tropa
amotinada não queriam esperar por novas soluções. Dom Pedro I abdicou.
Vergueiro escondera-se propositalmente. Era o único senador que
fazia parte de uma conspiração dos deputados liberais, cujo objetivo era
retirar o poder pessoal do monarca. Omitindo-se no momento crítico,
conseguira forçar a queda do imperador. Ao saber da decisão de Dom Pedro
I, comentou:
--- Se o Sr. Dom Pedro I abandonou a Coroa, viva o Sr. Dom Pedro II.
Viva o Sr. Dom Pedro II, Imperador Constitucional e menor-idade.

TRES HOMENS, UM SÓ GOVERNO

Dom Pedro II tinha cinco anos de idade e não podia governar
pessoalmente. Para esse caso, a Consituição de 1824 previa a formação de
um Conselho de Regentes para dirigir o País em nome do soberano. Nem bem
Dom Pedro I havia abdicado e os deputados e senadores reunidos nomeavam
os regentes: Brigadeiro Francisco de Lima e Silva, Marquês de Caravelas
(José Joaquim Carneiro de Campos), e Vergueiro. Essa formação conciliava
as forças militares (Lima e Silva), o prestígio popular (Vergueiro) e a
aristocracia tradicional (Caravelas). Era a Regência Trina Provisória,
que reconduziu ao Governo o Gabinete de 20 de março, demitido por Dom
Pedro.
O Parlamento decidiu que os regentes não teriam todos os poderes do
imperador. Não poderiam dissolver a Câmara, nem conceder títulos
nobiliárquicos; seus atos ficavam sob controle do Congresso. Mantinham a
prerrogativa de nomear senadores.
Na realidade, era um Governo interino, que deveria permanecer tão
sómente até a eleição definitiva dos regentes pelo Congresso. Vergueiro,
então com 53 anos, não fez nenhum esforço para manter-se no poder. Não
fugia às suas obrigações e foi um dirigente ativo. Mas o cargo o absorvia
por completo, e ele desejava dedicar-se também a outras atividades. Após
setenta dias de governo, a Regência Provisória era substituída por uma
outra, permanente, composta de Bráulio Muniz, Costa Carvalho e Lima e
Silva. Dali por diante, Vergueiro afastou-se aos poucos dos postos
executivos, embora em 1832 ainda tivesse ocupado o cargo de ministro do
Império.
Participou com algum entusiasmo da campanha liberal que culminou na
aprovação do Ato Adicional de 1834, que permitia maior autonomia
administrativa e política às províncias, reformando a Consituição de
1824. Entre outras coisas, o Ato Adicional estabelecia a existência de um
único regente, cargo para o qual foi eleito Feijó. No entanto, em 1837,
iniciava-se a reação conservadora com a substituição de Feijó por Araújo
Lima. Paulatinamente, foram anuladas as vitórias liberais, culminando com
uma lei de Interpretação do Ato Adicional. No Senado, Vergueiro lutou com
todas as forças para impedir sua aprovação, mas sua palavra foi
insuficiente para abalar aquele reduto de conservadores.
Antonio Carlos chefiou a última cartada, provocando a decretação da
maioridade de Dom Pedro II (1840). Mas a estrela dos liberais estava-se
apagando. Na Câmara, em nome de seus princípios, defendiam as garantias
individuais e os direitos do homem. No Governo, eram obrigados a reagir
contra rebeliões e motins, montando um forte aparelho de repressão.
Para os liberais exaltados, de tendência republicana, o Governo dos
liberais moderados era tido como despótico. Para os monarquistas
conservadores, levava à anarquia. E os conservadores acabaram firmando-se
no poder.
O último movimento armado promovido pelos liberais foi a revolução
de 1842, que eclodiu em São Paulo e Minas Gerais. Revoltavam-se contra o
que denominavam tirania do poder central, buscando recuperar a autonomia
relativa de que dispunham. Mas, o Governo, representado em São Paulo por
Costa Carvalho, antigo amigo e sócio de Vergueiro, estava firme. As
tropas comandadas pelo Barão de Caxias desbarataram os rebeldes e
impuseram a paz às províncias. Vergueiro, um dos inspiradores do
movimento, foi preso e só seria anistiado dois anos depois.
Terminava a geração dos liberais da Independência. José Bonifácio
morrera em 1838, em 1843 desaparecia Feijó, e nos dois anos seguintes
faleciam Martim Francisco e Antonio Carlos. Álvares Machado morreu em
1846. Restavam apenas Paula Sousa e Vergueiro, que permaneceu no Senado
até sua morte em 1859, mas sem nenhuma convicção. fez parte ainda do 7ð.
Gabinete da Maioridade, primeiro na pasta da Justiça, e depois como
ministro do Império. Chegou a presidir o Conselho de Estado do imperador.
No entanto, a vida política parecia ter perdido atrativos. Sua atenção
voltava-se para o interior de São Paulo, onde punha em prática outras
teorias.

ANTES DE TUDO, O AGRICULTOR

A política do Império não afastara Vergueiro de São Paulo. Ao
contrário, desde que se criaram as Assembléias provinciais (1835), além
dos cargos que exercia na Corte, Vergueiro acumulou um mandato de
deputado provincial. Foi presidente da Assembléia (1835-1837),
vice-presidente da província (1835-1836), e diretor da Faculdade de
Direito do Largo de São Francisco (1837-1842). Só deixou a Assembléia em
1847, quando contava 69 anos de idade.
Por todo esse tempo continuou administrando os empreendimentos
agrícolas que possuia. Vergueiro foi dos poucos liberais que aplicaram
suas convicções políticas no plano econômico. Acreditava na livre
iniciativa, não só quanto às relações entre os grandes empresários e o
Estado, mas também no âmbito do comércio exterior. As iniciativas
deveriam ser sempre livres para todos os homens, incluindo aqueles que
nada tinham para vender, exceto o seu trabalho e sua inteligência. Apesar
de fazendeiro, e necessitar de braços na lavoura, Vergueiro era contra a
escravidão.
Já quando regente, fizera libertar todos os escravos empregados no
serviço público, e dera ordens para impedir a entrada de novos escravos
no Brasil. Às pressões contrárias, respondia estar apenas cumprindo um
acordo assinado com a Inglaterra, em 1826. Ainda em 1831, apoiou um
projeto do Marquês de Barbacena, que declarava livre todos os escravos
introduzidos no País após aquela data. A lei foi aprovada, mas jamais foi
cumprida.
Como empresário agrícola compreendia que a abolição pura e simples
da escravatura poderia desorganizar o trabalho nas fazendas. Por isso,
preconizava a substituição gradual dos escravos por agricultores livres.
Em 1835, propos ao Congresso, a organização de uma sociedade de imigração
para trazer trabalhadores rurais às fazendas brasileiras.
Seu plano não foi aceito, e em 1840 resolveu --- às suas custas ---
fazer vir oitenta imigrantes portuguêses. Com a revolta de 1842, a
iniciativa fracassou.

SISTEMA DE PARCERIA

O projeto de imigração em larga escala oferecia problemas. O
primeiro era o financiamento, que Vergueiro, agora associado aos seus
filhos na firma Vergueiro & Cia., conseguiu, finalmente resolver junto ao
Governo da Província. Havia também as condições em que viriam os novos
imigrantes. Uma antiga idéia era dar-lhes as terras não aproveitadas, mas
Vergueiro argumentava que estas ficavam no sertão e tentativas desse
tipo acabaram fracassando. Traze-los pura e simplesmente como
assalariados era impraticável, pois não teriam condição de competir com a
mão de obra escrava, que continuava a ser introduzida no País.
Finalmente, Vergueiro elaborou um sistema de parceria. O imigrante
contraia uma dívida inicial com o fazendeiro, referente aos gastos de
viagem e instalação. Uma vez trabalhando, ficaria encarregado de certo
número de pés de café e receberia terreno para o plantio de uma roça de
subsistência. Vendida a produção, cabia-lhe uma parte do lucro
proporcional à sua produção, ficando o restante com o proprietário da
terra. Deveria cumprir o contrato até o pagamento integral da dívida, com
juros de 6% ao ano.
Com isso, Vergueiro pretendia estimular o plantio de novas áreas,
sem submeter o imigrante à concorrência direta do braço escravo. A dívida
inicial, por sua vez, dava garantias ao fazendeiro de que o colono
trabalharia para ele durante, pelo pelo menos, algum tempo.

Nessas condições, a Vergueiro & Cia. trouxe trabalhadores alemães e
suiços, a princípio para a sua própria fazenda de Ibicaba, parte da
antiga Sesmaria de Morro Azul, próxima à atual cidade de Limeira, no
Estado de São Paulo. Posteriormente, passou a fornecer imigrantes a todos
os agricultores que se interessaram pelo projeto, ampliado após a
abolição efetiva do tráfico de escravos, em 1850. Em alguns anos,
Vergueiro introduziu no Brasil mais de 3 mil imigrantes.
De repente, começaram a eclodir rebeliões de colonos, a mais grave
delas na própria Ibicaba, e, em 1859, o Governo prussiano proibia a
imigração para o Brasil. O fracasso era total e a culpa cabia a ambas as
partes. Os estrangeiros vindos para trabalhar na lavoura tinham, na
maioria das vezes, pouca ou nenhuma experiência agrícola, tendo sido
trabalhadores urbanos em seus países de origem, e não conseguiam cuidar
de um grande número de pés de café. Por seu lado, os fazendeiros não
raro, destinavam-lhes as piores terras. Em muitos casos, a dívida
original aumentava ao invés de diminuir, pois os imigrantes eram
obrigados a fazer novos empréstimos para sustentar-se até a safra. Dessa
forma, criava-se entre o imigrante endividado e o fazendeiro uma relação
que se assemelhava à semi-servidão.
Não era isso o que Vergueiro planejara. Pensava constituir com os
imigrantes uma massa de pequenos proprietários agrícolas que, uma vez
livres dos débitos de viagem, pudessem estabelecer-se por conta própria.
Vergueiro que modificara a agricultura, transformando o homem do
campo. Sua companhia tinha inclusive a finalidade de introduzir a
educação primária e secundária no meio rural. Em Ibicaba, as crianças
negras recém-nascidas eram declaradas livres. Criou uma fazenda modelo
para ensinar as práticas agrícolas. Mas nessa tarefa não foi acompanhado
pelos fazendeiros que, habituados ao trabalho escravo, davam aos
imigrantes péssimas condições de vida. Assim, o plano não teve exito. O
sistema foi abandonado, passando-se ao pagamento por tarefa. A imigração
minguava a níveis mínimos. No entanto, seria a imigração que cinquenta
anos depois solucionaria, como ele havia previsto, os problemas da
agricultura, e constituiria um dos fatores a transformar São Paulo em
grande centro industrial.
O velho senador não lutara sózinho. Tivera o auxílio de Maria
Angélica e seus filhos, mas eram muito poucos para a tarefa a que se
propunham. Faleceu na cidade do Rio de Janeiro, a 18 de setembro de 1859,
estando sepultado no Cemitério São João Batista, naquela cidade.


JOÃO MANOEL VERGUEIRO

Foi Inspetor dos Dízimos Reais e administrador inicial do Engenho do
Limoeiro, de propriedade de seu irmão Nicolau Pereira de Campos
Vergueiro, até quando veio a falecer, tido como solteiro em Piracicaba no
ano de 1815.
A origem do Limoeiro está nas terras devolutas que Nicolau, Capitão
José Andrade de Vasconcellos e o Capitão João Lopes França descobriram em
1807 nas margens do rio Piracicaba, no então distrito da Villa de Porto
Feliz e comarca de São Paulo.
Tendo requerido em 22 de julho do mesmo ano, obtiveram uma sesmaria
nessas terras, por carta de 11 de novembro (Liv. Sesmarias e Patentes,
1807-1810, pág. 25 - Arquivo do Estado de São Paulo), de 2 léguas em
quadra, principiando a testada no ribeirão do Ceveiro, onde o mesmo faz
barra no rio e correndo o rio abaixo até findarem as 2 léguas,
compreendidas às pontas e às enseadas adjacentes à linha de medição e o
sertão, ou fundo, para a parte da serra da Araraquara até onde findarem
as 2 léguas, seguindo-se o rumo que corresponder e fizer quadra com a
testada.
Nestas terras formaram um estabelecimento de agricultura que ficou
conhecido pelo nome de Engenho do Limoeiro, destinado ao plantio da cana
e fabricação de açucar. Nicolau veio a ficar o único proprietário.
Avaliado em quatro contos e duzentos mil réis, foi um dos bens que
Nicolau Vergueiro, logo depois, entrou para a sociedade com o Brigadeiro
Luiz Antonio, sendo então administrado por Damião de Sousa Nogueira. Tais
domínios foram aumentados para o outro lado do rio, sendo que já em 1924,
pertencentes à famílias diversas. (Fonte: O Senador Vergueiro, por Djalma
Forjaz, Ed.1924, pág.24).


JOAQUIM JOSÉ PEREIRA DE FARO

Fidalgo Cavaleiro da Casa Imperial Brasileira, coronel chefe da
primeira Legião da Guarda Nacional, Moço da Câmara da Imperial Guarda
Roupa. Comendador da Ordem de Cristo.


LUIZ PEREIRA DE CAMPOS VERGUEIRO

Luiz Pereira de Campos Vergueiro estudou direito na Universidade de
Gottingen, (Alemanha).


JOSÉ DA SILVA VERGUEIRO

JOSÉ DA SILVA VERGUEIRO
Bacharel em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco.
Foi Juíz Municipal em Santos e deputado ao Congresso do Estado de
São Paulo.


FRANCISCO ANTONIO DE SOUSA QUEIRÓZ

FRANCISCO ANTONIO DE SOUSA QUEIRÓZ
Barão de Sousa Queiróz, com Honras de Grandeza.