DR. BRAULIO GOMESSe Plutarco editasse nova obra sôbre a vida de novos homens
ilustres, poderia reservar nela uma página em que esculpiria, com
elegância, a personalidade de BRÁULIO GOMES, uma das figuras mais
distintas da classe médica que São Paulo teve a honra de possuir e
admirar.Nascido em 1854, em São José do Turvo, Provincia do Rio de Janeiro,
era filho do Major Pedro Gomes de Souza. Formou-se em medicina pela
Faculdade da Côrte, colando grau de doutor em 12 de janeiro de 1878.
Exerceu inicialmente suas atividades profissionais em Santa Isabel do Rio
Preto e em Valença, cidades da antiga Província do Rio de Janeiro, na
última das quais foi vereador.Freqüentou, na Europa, dois grandes centros científicos da medicina
- Paris e Viena -, seguindo neles as especialidades de ginecologia e
obstetrícia, em que se aprimorou, vindo para São Paulo, escolhendo a
cidade paulista de Sorocaba para centro de sua profissão. Nessa cidade
veio a contrair núpcias com D. Leonor de Souza Freire, descendente de uma
das mais tradicionais famílias paullstas da alta genealogia bandeirante.Desenvolveu sua carreira ascensional, estabelecendo-se a seguir na
cidade de Campinas, onde mais tarde veio a grassar a epidemia de febre
amarela, possibilitando a revelação de Bráulio Gomes no apostolado de sua
profissão, pelo combate que encetou ao mal devastador em tal grau de
dedicação que chegou ao ponto de contrair a moléstia à cabeceira dos
doentes. Salvo, volta ao seu posto assombrando tôda Campinas, que se
prostava admirada da grandeza de seu desprendimento pela própria vida, no
afã de salvar a do próximo. Pelos seus atos de altruísmo e abnegação o
povo campineiro lhe oferta uma medalha de ouro.Bráulio Gomes, com os olhos fixos na grandeza do futuro bandeirante,
faz surgir, no decorrer de 1894, na Capital paullsta, sua primeira
realização : a Maternidade de São Paulo. Em 1898, outro grande sonho
acaricia e povoa a imaginação de Bráulio Gomes, na Fundação da Escola de
Farmácia e de Odontologia de São Paulo, que hoje, aí se encontra de pé,
acolhida pela Universidade de São Paulo.Sua missão na terra - como bem diz Câmara Lopes - êle soube honrar,
realizar e completar, não obstante ter sido sua vida tão curta. Repetia
constantemente aos seus íntimos: "A terra de minha mulher e a de meus
filhos é a minha terra". - Nessa confissão, que era afinal uma profissão
de fé, de amor a São Paulo, êle incutia no ânimo de seus filhos a certeza
de sua fidelidade à nossa terra e à nossa gente. Eis porque, nos dias
gloriosos de 1932, os dignos filhos de Bráulio Gomes se despojaram da
mais rica jóia que possuiam, ofertando a medalha, com que Campinas
gratíssima condecorara o grande grande médico, à Cruzada do Ouro para o
Bem de São Paulo. Semelhante gesto bem define uma raça, que nunca
desmentirá as virtudes de uma Casa, onde sempre o civismo teve um culto
todo especial e permanente.Bráulio Gomes poderia, com semelhantes títulos, encerrar sua
história, subindo os degraus do Capitóllo das nossas mais notáveis
figuras. Mas, esse foi o homem público. Houve outro, o Dr. Bráulio
Gomes, na intimidade de seus amigos. Foi o que viveu no seio de nossa
sociedade, no convívio de nossa intimidade, no lar de seus amigos, que
foram todos os que o conheceram e amaram, onde êle se fez querido pelo
reflexo de uma vida doméstica, edificante e santa, cópia e espelho de
acrisoladas virtudes, catecismo de elevado civismo, fonte inesgotável de
uma caridade, cujos limites sua modéstia sempre disfarçou e escondeu.Assim, quando Bráulio Gomes desapareceu do mundo dos vivos (6 de
dezembro de 1903), desapareceu com êle um dos maiores luminares da
medicina, que tão benéficos e relevantes serviços prestara à cidade de
São Paulo, que êle soube amar acima de tudo e por cuja grandeza sempre
pôs o melhor de seus esforços.