JOÃO RAMALHO
1- Vida: Aventureiro e povoador português do séc. XVI e uma das mais
curiosas figuras dos primeiros tempos da colonização no Brasil, a vida de
João Ramalho é ainda obscura e controversa, sob muitos aspectos. Nem
mesmo a razão de sua presença na América está esclarecida a contento.
Já foi dito que veio com a expedição de Martim Afonso de Sousa, de
1531-1532. Mas há testemunho em contrá- rio de contemporàneos, como o
governador-geral Tomé de Sousa ("João Ramalho... que Martim Afonso " já
achou nesta terra..."), o padre Luis Gonçalves da Câmara ("Nesta terra
está um João Ramalho. É muito antigo nela") ou o padre Manuel da
Nóbrega ("Quando veio da terra, que havia quarenta anos e mais, deixou
mulher lá, viva, e nunca mais soube dela, mas lhe parece que deve ser
morta, pois já vão tantos anos"). Admitida essa estimativa, teria
precedido Cabral.2- Acredita-se, porém, geralmente, que tenha vindo antes de Martim
Afonso, mas após o descobrimen- to, aportando à região de S. Vicente por
volta de 1508 ou 1512. Náufrago, como Caramuru, fugitivo de algum
navio de passagem ou, mais provavelmente, degredado - pois, na ausência
de impedimento, todo jovem casado envidaria esforços para voltar à
mulher -, aclimatou-se logo, uniu-se aos índios locais, guaianás ou
guaianases, e acabou desposando uma das filhas do 'principal da terra'
(Tibiriçá), Bartira ou Potira, "a flor". Essa foi batizada como Isabel
mas jamais se casou na Igreja. Aparece no testamento de João Ramalho
(de 3 de maio de 1580) como sua criada. Talvez a mulher portuguesa,
Catarina Fernandes das Vacas, natural da aldeia de Valgode ou
Balgode (Balbode no testamento), vivesse ainda.3- Segundo o padre Nóbrega, João Ramalho era parente do padre Manuel de
Paiva, que no Brasil vie- ra a conhecer. Filho de João Velho Maldonado
e de Catarina Afonso, teria nascido em Boucela ou Vou- zela, freguesia e
comarca de Vizeu, talvez pertencente na época a Coimbra (pois Tomé de
Sousa o dá como "do termo de Coimbra"). Da união com Isabel-Bartira
teve prole, mas os genealogistas diver- gem quanto ao número e aos
nomes dos filhos.4- Do hoje desaparecido testamento constavam os seguintes: André, joana,
Margarida, Vitório, Marcos e João Ramalho, Antônio de Macedo e Antônio
Quaresma (os nomes diferentes não significam bastar- dia; era costume
português adotar os de padrinhos, avós etc.). Teve também filhos de
outras mulhe- res, inclusive de irmãs da sua. Foram todos batizados,
pois João Ramalho, malgrado a irregularidade de sua situação e de sua
vida, não hostilizava os padres. Tentou, mesmo, certa vez, assistir a
mis- sa, mas foi impedido de fazê-lo pelo padre Leonardo Nunes, que o
expulsou do templo.5- O patriarca. Sempre usou a ascendência que tinha sobre Tibiriçá e o
respeito geral de que gozava ("é muito conhecido e venerado entre os
gentios", escreveu Nóbrega) para o bom entendimento entre colonos e
silvícolas. Teve detratores, que o acusavam de visar sempre ao lucro e
não ser mais que um traficante de escravos, ganancioso e prepotente.
Pioneiro da colonização, foi de fato o patriarca da gente paulista.
Ao seu tempo, S. Vicente já era porto conhecido na Europa, constava de
mapas, co- mo os dois do atlas de Kurstman (posterior a 1502 e anterior a
1504), e funcionava como uma espécie de feitoria particular, em que a
compra de índios preados no interior era negócio florescente. Tinha
bom ancoradouro, facilidades para refresco e aguada de navios e, até,
para seu reparo.6- Mas João Ramalho não se fixou no litoral. Instalou-se mais acima, na
orla da mata pluvial da serra do Mar, na 'Borda do Campo", a umas 12
léguas da costa, em local chamado Jaguaporecuba. Suas terras, e as
de seus filhos, confinavam com a sesmaria dos índios da aldeia de S.
Miguel do Ururaí. O alemão Ulrich Schmidl, que não chegou a avistar-se
com ele, mas foi recebido pelos filhos, descreveu o lugar como um covil
de ladrões.7- Há dúvidas de que João Ramalho tenha fundado no planalto a povoação de
Borda do Campo, depo- is Santo André da Borda do Campo. É certo que foi
feito capitão da mesma (carta de 1ð de julho de 1553) por Tomé de
Sousa, que julgara avisado reunir em torno de ermida já existente os
habitantes esparsos da região. Santo André seria incorporada à vila de
S. Paulo por Mem de Sá (Carta de 20 de maio de 1560).8- Está provado que João Ramalho exerceu o cargo de vereador entre
1553 e 1558. Varnhagen viu ainda em documentos coevos o sinal com
que costumava assinar. Foi também, cumulativamente, capitão, alcaide
e guarda-mor do campo. Em 1564 recusou servir de novo em São Paulo
alegando a idade avançada. Morreu por volta de 1580. Afastado de tudo,
vivia no vale do Paraíba, entre os tupi- niquins (ou tupinaquis, como
então se dizia). Homem do seu tempo, rude mas inteiriço e bravo, teve
riço e bravo, teve importante pape na formação de S. Paulo e prestou
bons serviços tanto à coloniza-
ção quanto à catequese.
(Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional - Vol. 17 - Pág. 9605)
JOÃO RAMALHO
1- Vida: Aventureiro e povoador português do séc. XVI e uma das mais
curiosas figuras dos primeiros tempos da colonização no Brasil, a vida de
João Ramalho é ainda obscura e controversa, sob muitos aspectos. Nem
mesmo a razão de sua presença na América está esclarecida a contento.
Já foi dito que veio com a expedição de Martim Afonso de Sousa, de
1531-1532. Mas há testemunho em contrá- rio de contemporàneos, como o
governador-geral Tomé de Sousa ("João Ramalho... que Martim Afonso " já
achou nesta terra..."), o padre Luis Gonçalves da Câmara ("Nesta terra
está um João Ramalho. É muito antigo nela") ou o padre Manuel da
Nóbrega ("Quando veio da terra, que havia quarenta anos e mais, deixou
mulher lá, viva, e nunca mais soube dela, mas lhe parece que deve ser
morta, pois já vão tantos anos"). Admitida essa estimativa, teria
precedido Cabral.2- Acredita-se, porém, geralmente, que tenha vindo antes de Martim
Afonso, mas após o descobrimen- to, aportando à região de S. Vicente por
volta de 1508 ou 1512. Náufrago, como Caramuru, fugitivo de algum
navio de passagem ou, mais provavelmente, degredado - pois, na ausência
de impedimento, todo jovem casado envidaria esforços para voltar à
mulher -, aclimatou-se logo, uniu-se aos índios locais, guaianás ou
guaianases, e acabou desposando uma das filhas do 'principal da terra'
(Tibiriçá), Bartira ou Potira, "a flor". Essa foi batizada como Isabel
mas jamais se casou na Igreja. Aparece no testamento de João Ramalho
(de 3 de maio de 1580) como sua criada. Talvez a mulher portuguesa,
Catarina Fernandes das Vacas, natural da aldeia de Valgode ou
Balgode (Balbode no testamento), vivesse ainda.3- Segundo o padre Nóbrega, João Ramalho era parente do padre Manuel de
Paiva, que no Brasil vie- ra a conhecer. Filho de João Velho Maldonado
e de Catarina Afonso, teria nascido em Boucela ou Vou- zela, freguesia e
comarca de Vizeu, talvez pertencente na época a Coimbra (pois Tomé de
Sousa o dá como "do termo de Coimbra"). Da união com Isabel-Bartira
teve prole, mas os genealogistas diver- gem quanto ao número e aos
nomes dos filhos.4- Do hoje desaparecido testamento constavam os seguintes: André, joana,
Margarida, Vitório, Marcos e João Ramalho, Antônio de Macedo e Antônio
Quaresma (os nomes diferentes não significam bastar- dia; era costume
português adotar os de padrinhos, avós etc.). Teve também filhos de
outras mulhe- res, inclusive de irmãs da sua. Foram todos batizados,
pois João Ramalho, malgrado a irregularidade de sua situação e de sua
vida, não hostilizava os padres. Tentou, mesmo, certa vez, assistir a
mis- sa, mas foi impedido de fazê-lo pelo padre Leonardo Nunes, que o
expulsou do templo.5- O patriarca. Sempre usou a ascendência que tinha sobre Tibiriçá e o
respeito geral de que gozava ("é muito conhecido e venerado entre os
gentios", escreveu Nóbrega) para o bom entendimento entre colonos e
silvícolas. Teve detratores, que o acusavam de visar sempre ao lucro e
não ser mais que um traficante de escravos, ganancioso e prepotente.
Pioneiro da colonização, foi de fato o patriarca da gente paulista.
Ao seu tempo, S. Vicente já era porto conhecido na Europa, constava de
mapas, co- mo os dois do atlas de Kurstman (posterior a 1502 e anterior a
1504), e funcionava como uma espécie de feitoria particular, em que a
compra de índios preados no interior era negócio florescente. Tinha
bom ancoradouro, facilidades para refresco e aguada de navios e, até,
para seu reparo.6- Mas João Ramalho não se fixou no litoral. Instalou-se mais acima, na
orla da mata pluvial da serra do Mar, na 'Borda do Campo", a umas 12
léguas da costa, em local chamado Jaguaporecuba. Suas terras, e as
de seus filhos, confinavam com a sesmaria dos índios da aldeia de S.
Miguel do Ururaí. O alemão Ulrich Schmidl, que não chegou a avistar-se
com ele, mas foi recebido pelos filhos, descreveu o lugar como um covil
de ladrões.7- Há dúvidas de que João Ramalho tenha fundado no planalto a povoação de
Borda do Campo, depo- is Santo André da Borda do Campo. É certo que foi
feito capitão da mesma (carta de 1ð de julho de 1553) por Tomé de
Sousa, que julgara avisado reunir em torno de ermida já existente os
habitantes esparsos da região. Santo André seria incorporada à vila de
S. Paulo por Mem de Sá (Carta de 20 de maio de 1560).8- Está provado que João Ramalho exerceu o cargo de vereador entre
1553 e 1558. Varnhagen viu ainda em documentos coevos o sinal com
que costumava assinar. Foi também, cumulativamente, capitão, alcaide
e guarda-mor do campo. Em 1564 recusou servir de novo em São Paulo
alegando a idade avançada. Morreu por volta de 1580. Afastado de tudo,
vivia no vale do Paraíba, entre os tupi- niquins (ou tupinaquis, como
então se dizia). Homem do seu tempo, rude mas inteiriço e bravo, teve
riço e bravo, teve importante pape na formação de S. Paulo e prestou
bons serviços tanto à coloniza-
ção quanto à catequese.
(Fonte: Enciclopédia Mirador Internacional - Vol. 17 - Pág. 9605)