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Fundado em 1977 - Diretor Geral: Claudio Fortes |
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Brasílio Augusto Machado de Oliveira Patrono da Cadeira 30 da Academia Paulista de História |
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Discurso proferido por
Nelly Martins Ferreira Candeias ao tomar posse na Academia Paulista de
História, em 22 de dezembro de 2000, em sessão solene realizada no Salão
Nobre da antiga Casa de Dona Veridiana Prado,
hoje Clube São Paulo. Senhoras e Senhores, colegas e amigos, recomenda a tradição que, em solenidades como esta, o novo titular, ao fazer o seu discurso de posse, refira-se à vida e à obra do patrono da cadeira, do fundador e de seu antecessor imediato. |
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Trata-se do deliberado
empenho de recordar, para a memória da história de São Paulo, a trajetória
percorrida por quem luta pelos valores da Nação.
Cremos estar no caminho certo ao trazer para o presente os nomes de quem, no passado, se dedicou à nobre missão de zelar pelo patrimônio comum da nossa Pátria. À semelhança dos homens, também as instituições têm uma forma de consciência , que se manifesta pelo dever cívico de lembrar os fatos históricos e as pessoas que contribuíram para o engrandecimento e para a moralização da pátria, nossa mais profunda razão de ser. Se aqui nos encontramos, na Academia Paulista de História, é porque amamos São Paulo e queremos exaltar os valores que nos enobrecem como Nação. A propósito do digno empenho de exaltar a memória da nação, assim se expressou Brasílio Augusto Machado de Oliveira, patrono da cadeira 30 desta Academia, no discurso Onze de Agosto, pronunciado na Faculdade de Direito de São Paulo em 1883 : “o povo vai se acostumando a distanciar da recordação das coisas vivas a memória das coisas mortas, como se não devêssemos nas tradições da história ganhar alento para afrontar os perigos de hoje e eliminar as indecisões de amanhã”. Brasílio Machado nasceu na cidade de São Paulo a 4 de setembro de 1848, filho do brigadeiro José Joaquim d’Oliveira, 1790 – 1867, e de D. Leocadia Thomazia de Lima. Vulto dos mais proeminentes da história militar, social e científica da Nação e Paulista coberto de glórias, José Joaquim, pai de Brasílio, sempre serviu à Pátria que amou e honrou de forma notável. Depositário do arquivo opulento que o pai lhe deixara, Brasílio tinha tudo para herdar a devoção pelas coisas do espírito e o amor por São Paulo e pela pátria. Em todas as manifestações da atividade intelectual, não se pode recordar as pessoas apenas pelas obras de reconhecido mérito que deixaram. É preciso considerar, nessa memória, a influência que cada um teve no seu tempo de vida, com o testemunho dos contemporâneos e com a viva impressão gravada no espírito dos que com elas conviveram. Para retratar Brasílio recorro às palavras de seu filho, Alcântara Machado, autor do livro Brasílio Machado, e do seu neto, Antonio, brilhante contista , cuja morte prematura muito entristeceu a cultura paulista. Lembro também os comovidos depoimentos daqueles que tiveram o privilégio de com ele conviver, como alunos da Faculdade de Direito de São Paulo, Reynaldo Porchat e Pelágio Lobo, ou que, como Cordeiro Leite, exaltaram a memória do saudoso tribuno em memorável oração. Desses nomes procedem as recordações que tenho a honra de vos oferecer nesta romaria de infinita saudade. Brasílio Machado foi considerado um belo homem. “Alto, magro, bem trajado, a palidez do rosto contrastando com o fulgor dos olhos grandes que mais brilhavam pelo acentuado das sobrancelhas carregadas, cabelos pretos, maneiras fidalgas, bela cabeça, porte senhorial, gesticulação sóbria e apropriada, dicção clara, voz quente e maviosa, Brasílio Machado, quando falava, atraía para logo seduzir”.; ...”boca rasgada sensual e iluminando, espiritualizando, magnificando as linhas vigorosas da face, uns olhos verdes que contrastavam com o moreno da tez e ardiam como esmeraldas abrasadas pela incidência de um feixe de luz”. “De feição externa ríspida, era homem de grande severidade. Difícil de se abrir em intimidades, cerimonioso e de poucas expansões, essa era a forma de valorizar as suas preferências. Foi esse um dos traços de caráter na nobre árvore dos Machado de Oliveira”, porque de feitio idêntico foi Alcântara Machado, António e Brasílio Machado no dizer de Pelágio Lobo. Era preciso conquistar-lhe uma pequena dose de confiança inicial para então penetrar na sua intimidade e confiança. Feitio natural, índole de recolhimento, talvez herança atenuada de um ancestral bandeirante, dessa gente dura, valente e destemida que entrou sertão a dentro e só pôde vencer e voltar vivo ao campo nativo de Piratininga, porque aprendera a desconfiar de tudo -–da água parada, do índio submisso, da onça fugidia, do próprio agregado, escravo ou serviçal”. Brasílio estudou no Seminário Episcopal, fundado por D. Antonio Joaquim de Melo. Os anos passados no Seminário despertaram-no para a humanidade e fé religiosa, aspectos que viriam a marcar profundamente sua personalidade mística. Em 1868 ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo. Aguardavam os calouros para saudá-los, como veteranos, Rui Barbosa, Castro Alves e Salvador Mendonça. Nas cátedras da Academia, pontificavam José Bonifácio, o moço, e Joaquim Inácio Ramalho, entre outros. Brasílio diplomou-se em 1872 e doutorou-se em 1875. Como poeta, sofreu intensamente a influência de Castro Alves, de quem foi colega e íntimo amigo. Daí, talvez, seu entusiasmo pela poesia, que o levou a publicar três coletâneas de versos: Madressilvas, em 1876, Perpétuas, em 1882 e Ave Maria, em 1900. São de Madressilvas, os famosos versos dedicados à Piracicaba, onde pela primeira vez a bela cidade paulista é assim evocada: “Sacode os ombros, ó noiva da colina, Que a luz da madrugada encheu o largo céu E arranca-te das mãos o manto da neblina Que ondula sobre o rio, enorme e solto o véu.” Em Perpétuas reúne as poesias que escreveu ao perder uma filha: “... São saudades Em horas de pesar amanhecidas... Inclinadas parecem que balançam Como sinos dobrando por finados. Se morrem, na semente redivivem. A dor renova a dor. E são perpétuas.” Sua última e terceira coletânea de versos, Ave Maria, paráfrase da saudação angélica, Ave Maria, é dedicada à Maria Santíssima pelas mãos de Maria Leopoldina (de Souza Amaral), sua mulher, cujo nome perpetua: “Se eu pudesse, no espaço escreveria Com as letras das estrelas teu Nome Ave Maria !” Não foi por suas poesias que Brasílio se notabilizou. Absorvido pela política, pela advocacia e pelo magistério, raramente se dispunha a fazer versos.” Jurisconsulto de alto saber, escritor de aprimorada elegância, poeta de não comum inspiração, político que marcou a imprensa, “com a sua natural majestade, foi o prìncipe da tribuna judiciária de São Paulo”, nas palavras de Pelágio Lobo. Orador comparável a José Bonifácio, o Moço e a Joaquim Nabuco, conquistou a notoriedade com a oração pronunciada, em 1881, na Sessão Comemorativa do Tri-centenário da morte de Camões, quando, em nome do jornal “A Constituinte”, fez um discurso, que foi publicado em quatro edições sucessivas. Dele são várias frases, cujo trecho de maior efeito diz ” Portugal, essa nação pequenina, que a Espanha comprime e que o Oceano alarga... Essa nova Grécia dos argonautas da glória”. Igualmente famosa foi a oração sobre Carlos Gomes. Seguem-se-lhes o discurso inaugural do Instituto de Advogados de São Paulo e a conferência sobre Anchieta, que mereceu o elogio público de Machado de Assis. “Ao ver e ouvir os notáveis discursos proferidos por Brasílio na cátedra da academia, nos salões de conferência e no tribunal do Juri, ficava-se, diz Porchat, com uma impressão indelével de sua encantadora eloqüência.” Seu cargo de maior projeção foi o de Presidente da Província do Paraná, para o qual foi escolhido pelo Gabinete do Conselheiro Dantas, onde, em 1884, revelou seus talentos em administração. Nessa ocasião, trabalhou intensamente pela campanha abolicionista, tendo tido a glória de dar à província que governava a iniciativa no Brasil da obrigatoriedade do ensino primário. Com a queda do ministério liberal, Brasílio demitiu-se e regressou a São Paulo. De volta a São Paulo, em 1885, aos 37 anos, monarquista convicto e católico declarado, viu com amargura a derrocada do regime e o advento da República com o seu ideário positivista. A República propunha mudanças que a mentalidade católica não podia aceitar, como a separação entre o Estado e a Igreja, a secularização dos cemitérios e o reconhecimento do casamento civil. Foi essa a razão que o levou a tentar fundar o Partido Católico, com José Vicente de Azevedo, Miranda Azevedo, Luís Gonzaga de Silva Leme e outros. A finalidade da agremiação, exposta em manifesto em 1890, não conseguiu mobilizar adeptos em número suficiente e o Partido não conseguiu eleger nenhum de seus candidatos. Brasílio abandonou a política partidária, mas não suas idéias religiosas. Datam de então seus passos decisivos em direção da advocacia e do magistério, onde fez carreira notável, como o reconhecem seus contemporâneos. Ao separar a Igreja do Estado, os constituintes republicanos abalaram o sentimento católico do país. Brasílio viu nisso um perigo à Igreja Católica. Em 1894, nas palavras de Antonio, seu neto, êle assim definira a atitude do catolicismo brasileiro em face da República: “há entre nós franco empenho em agravar o pérfido preconceito de que a Igreja Católica é adversária intransigente do atual regime político. Não falta quem descubra na cruz a arma das rebeliões e em cada católico um conspirador disfarçado... Nosso objetivo único se resume numa pátria fortalecida pelo espírito do catolicismo. A Igreja... nada tem de comum na sua origem com essas instituições nascidas ao sopro instável da política e das idéias humanas”. Por seu empenho em reconquistar o espaço perdido pela Igreja católica com o advento da República e já distinguido em 1900 por Leão XIII com a Cruz Pro Eclesia e Pontífice, recebeu de Pio X, em 1910, de Pio X o título de Barão de Santa Fé, Dizem que foi José Bonifácio, o moço, quem o encorajou a ingressar no magistério superior, a defender tese e a fazer concurso para Professor Catedrático da Faculdade de Direito de São Paulo. Aprovado como lente substituto em 1883, tornou-se, em 1890, aos quarenta e dois anos e já no regime republicano, Professor Catedrático de Filosofia de Direito e, em 1891, Professor Catedrático de Direito Comercial, onde muito se distinguiu. No dizer de Alcântara Machado, Brasílio tinha um quid indefinível, uma autoridade que lhe outorgava a simples presença, por mais estranho que fosse o auditório. “Na cátedra a presença do professor era impressionante”. Durante o exercício da sua função como professor catedrático da Faculdade de Direito de São Paulo, foi distinguido com a nomeação do governo federal para instalar o conselho Superior de ensino, criado em 1911, ocasião em que muito fez pelo ensino secundário e superior do país. Foi nesse posto que se aposentou para voltar a São Paulo, onde desejava terminar os seus dias. Na breve oração proferida, em 1941, em nome da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito, ao ser colocado o busto de Brasílio Machado no salão do júri, Pelágio Lobo recordou o nome do Padre Antonio Vieira quando, no Sermão da Sexagésima, ao discorrer sobre o prestígio dos oradores sacros e sua influência sobre os ouvintes, acentuou que o lastro moral daquele que fala em público tem influência decisiva sobre quem o ouve e sobre a repercussão da matéria do discurso: “O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é ? É o conceito que, da sua vida, têm os ouvintes¨. É preciso concluir a memória deste Paulista ilustre, fundador e primeiro presidente da Academia Paulista de Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que à Pátria prestou os mais significativos serviços. Como jurista, tribuno, jornalista, professor, político e administrador, Brasílio surpreendeu as pessoas que o rodeavam, por sua extraordinária competência e por tudo submeter a seus princípios e a sua fé. Se foi um homem da Nação, foi também um Homem de Deus, Vir Dei. Bem merece a gratidão e o respeito que lhe dedicamos, recordando para sempre o seu nome e a sua obra. Brasílio faleceu no dia 5 de março de 1919. Morreu, como viveu, crendo “no pavilhão das Treze Listas na santa união de todos os Paulistas, na comunhão da Terra adolescente, na remissão da nossa pobre gente, numa ressureição do nosso bem, na vida eterna de São Paulo, - Amém !” Como ternamente escreveu seu filho, “não conheceu a melancolia do crepúsculo e a imagem que deixou é a de um sol que, de repente, em pleno esplendor, mergulhasse na escuridão”.
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