Fundado em 1977 - Diretor Geral - Cláudio Fortes - S.Paulo - Brasil

   

Comemoração

dos

200 Anos da Vinda

da Família Real

para o Brasil

 

                                     Nelly Martins Ferreira Candeias

 

 

Alteza Imperial e Real, Príncipe Dom Luiz

Prof. Dr.João Grandino Rodas, Diretor da Faculdade de Direito, cuja hospitalidade o Instituto agradece, Dr. D. Marcus de Noronha da Costa, Conde de Subserra, Prof. Dr. Daniel Serrão, Vice-Almirante Terenilton Souza Santos, Acadêmico Hernâni Donato, Presidente de Honra, membros da mesa,

Senhor Cônsul de Portugal

Meus senhores, minhas senhoras

É  uma  honra receber Sua Alteza Imperial, Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial Brasileira, sucessor dinástico de D. Pedro II, no momento em que se comemoram os 200 anos da vinda da Família Real para o Brasil. 

Os contatos  entre a Família Imperial e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo antecedem o  dia de hoje. No passado, o Instituto recebeu a Princesa Dona Maria Pia e sua filha, avó e tia de D. Luiz. Em 1956, o Príncipe Imperial, D. Pedro Henrique de Orleans e Bragança, pai de sua Alteza e então Chefe da Casa Imperial do Brasil tornou-se Membro Honorário do Instituto. Em nossas atas, faz-se referência à belíssima exposição de aquarelas de sua autoria. Pintor de sensibilidade artística verdadeiramente notável, Dom Luiz Henrique foi eleito para a Academia Brasileira de Artes em 1972.

Em setembro de 2002, recebemos Suas Altezas Imperiais, D. Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial, e  D. Bertrand de Orleans e Bragança, por ocasião da comemoração dos 180 anos da Independência do Brasil.

O Instituto foi criado em 1894 no salão nobre desta Faculdade, uma das razões pelas quais nos encontramos aqui reunidos. Se analisarmos as duas entidades com critério interpretativo, veremos que vários aspectos as  aproximam. Estevão Leão Bourroul, cujo retrato se encontra no auditório do Instituto, como um dos três de seus fundadores,  foi redator chefe do Boletim O 11 de agosto, expressiva voz dos alunos desta escola. Desde 1894, a família Bourroul  participa intensamente das atividades da nossa entidade, para benefício de todos.

José Carlos de Macedo Soares, presidente do Centro Acadêmico 11 de Agosto,  foi um dos fundadores do IHGSP, e entre os grandes nomes que marcam esta Faculdade encontram-se os de Rui Barbosa e de Prudente de Moraes, ambos presidentes honorários da nossa entidade.

Não apenas os nomes e a atuação das  pessoas nos unem, mas também a  proximidade geográfica. O Instituto e a Faculdade estão localizados na colina de Inhapuambuçu, chão de Tibiriçá na Piratininga quinhentista, a alguns passos do Páteo do Collegio, cujos valores missionários  moldaram os primórdios desta Nação, quando os jesuítas trouxeram a civilização e a fé cristã às populações das novas terras.

Além disso, as duas entidades se encontram no triângulo da cidade velha,  em cujos vértices ficam os históricos conventos de São Francisco, de São Bento e do Carmo,  reforçando a espiritualidade e a Fé que iluminam o Brasil.

Foi grande o empenho do Professor João Grandino Rodas, Diretor desta Faculdade,     e o meu, como Presidente do Instituto e professora titular da Universidade de São Paulo, de celebrar a transferência da Família Real portuguesa para o Brasil neste local, onde a História, o Direito e a Fé se encontram – valores sagrados em nossa cultura.

Sob a invocação desses valores, nos reunimos para festejar e assinalar fato de tão extraordinário significado em seus efeitos, que aqueles que não fizeram ou não viveram a história, injustamente o minimizam com afirmações frívolas, quando não absolutamente falsas.

Trata-se do empolgante segredo de estado, preparado com rara acuidade e percepção política, que contribuiu para a  definitiva  derrota de Napoleão na Europa e nas Américas e para o surgimento de uma Pátria poderosa de dimensão continental. Nos sonhos de dominação de Bonaparte, que terminaram com seu amargurado exílio na Ilha de Santa Helena, Portugal e Brasil  estavam destinados à França e à Espanha, após a eliminação da família Bragança, conforme consta no Tratado Secreto de Tilsit e de Fontainebleau, de 1807. A viagem da Família Real, projeto há muito estudado na corte lisboeta, alterou  o rumo da história das nações.

Ao evitar-se que a Família Real portuguesa fosse aprisionada em Lisboa pelas tropas francesas, optando-se por sua transferência  para o Brasil, inviabilizou-se o projeto de Napoleão para a Península Ibérica. E Junot “ficou a ver navios”, expressão que deriva, dizem, desse importante fato histórico.

No cais de Lisboa, no dia 30 de novembro de 1807, só restou ao general de Napoleão avistar  ao longe  as velas dos últimos barcos da frota portuguesa., e de perto ver e viver um plano fracassado de conquista política.

Vitorioso e alegre foi o desembarque do  Príncipe Regente na Bahia e no Rio de Janeiro! Não há relato em toda a história da humanidade de quem tenha feito tanto, imediatamente após o desembarque. Logo ao chegar, Dom João abriu os portos do Brasil e fundou  as Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro onde se instalou a corte.

E assim teve início o ensino superior neste país. Data áurea no calendário da educação no Brasil, coube a Dom Pedro I , em 11 de agosto de 1827, a fundação dos Cursos Jurídicos, ao criar  simultaneamente  cursos em São Paulo e em Olinda, que mais tarde ocupariam o decanato de duas universidades brasileiras. São fatos que não podem ser esquecidos.

A Universidade de São Paulo foi  criada no dia 25 de janeiro de 1934, pelo Governador, Armando de Salles Oliveira, também ele membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Para a própria Faculdade que nos hospeda, este é um momento de histórica  e grata recordação. É também um retorno às suas origens receber hoje um descendente do seu fundador, D. Pedro I, o Príncipe D. Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, cujo irmão, o Príncipe D. Bertrand de Orleans e Bragança, é antigo aluno desta escola.

No século passado, nossa entidade  homenageou as figuras de D. Pedro I, D. Leopoldina e   D. Pedro II, instituindo medalhas com as efígies de três grandes personagens da Família Real.Hoje outorga, pela primeira vez, o Colar dos 200 anos da Vinda da Família Real,  cujo medalhão contém a esfera armilar no anverso, como base da condecoração, símbolo dos descobrimentos de quem atravessou a solidão do mar olhando as estrelas no alvorecer do mundo.

Evoca a tenacidade dos portugueses, seu poder de conquista, o pioneirismo marítimo que levou Gil Eanes, Diogo Cão, Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e seus homens  a dilatar as terras e os mares, indo muito além da Taprobana. Eram os fortes, ainda mais fortes.

Instrumento de astronomia usado nas grandes navegações,  a esfera armilar  é modelo reduzido da esfera celeste. Símbolo pessoal de D. Manuel I, representava a expansão marítima dos Portugueses ao longo dos séculos XV e XVI., tendo sido   incorporada por Dom João VI  à bandeira do Reino Unido de Portugal e do Brasil.

Por feliz coincidência de concepção, o brasão do IHGSP e  o  brasão da Universidade de São Paulo, este criado por Wasth Rodrigues, membro do nosso Instituto,  também contêm a esfera armilar, a mesma que se encontra nas armas de Dom João VI. Mística sublime de um símbolo que perdura no brasão da Casa Imperial do Brasil, o colar do bicentenário  representa a  homenagem àqueles que trouxeram o ensino superior para o Brasil, entre  numerosas realizações sobre os quais outros falarão a seguir, e certamente com mais conhecimentos.

É raro privilégio relembrar a história de todos que construíram o Brasil, tendo como data limite a glória desta comemoração: os navegadores, os missionários, os índios e  os negros, início da nossa miscigenação, os mamelucos, as heróicas famílias, as mulheres que deram origem ao povoamento de serra acima e do sertão adentro, os   bandeirantes ampliando o território.     O Tratado de Madrid que ao tempo de Dom João V, por competência diplomática, revogou o Tratado de Tordesilhas, anulando o meridiano que dividia o Brasil entre Portugal e Espanha, e assim delineando a atual configuração do nosso território. Tudo isso culminou na vinda da família real para o Brasil, em 1808, sem o quê a antiga colônia portuguesa se fragmentaria em pequenos países, como ocorreu com a costa oeste do continente.

Dom João VI construiu a identidade do Brasil e garantiu a unidade da Nação, tornando-a para sempre uma herança do heróico povo luso, sabiamente orientado por “aqueles Reis que foram dilatando a Fé e o  Império”, como registrou Camões no seu imortal poema.

E mais todos aqueles que nestes cinco séculos tiveram a força, a glória e a Fé bastante para transformar um território selvagem, bravamente conquistado, em um país digno  de suas tradições lusíadas. A obra portuguesa de descobrimento e de colonização fez-se com todos esses elementos - os de inteligência e os de ação, os de aventura e os de rotina, os de ciência e os de arte, os capazes de viver.

Historiadores e geógrafos que dedicaram suas vidas à memória da nação,  professores que defenderam os valores que nos mantêm unidos, são exemplos de inteligência, de conhecimento científico, de bondade e de esclarecida visão, unidos hoje pelo místico símbolo da esfera armilar, que perdura na Família Real, na Universidade de São Paulo e no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Que o símbolo desta união nos permita alcançar sempre, e na mesma direção, as coordenadas da esfera superior.

Os brasileiros  enfrentam uma campanha maliciosamente articulada contra os valores, os símbolos e a glória  de sua Pátria, a qual atinge os jovens até mesmo em seus livros escolares. Farsas pseudo-históricas são amplamente divulgadas no cenário globalizado da mídia, sob a forma de novelas romanceadas, que deformam  a   história, fazendo prevalecer o burlesco dos relatos, sem interpretar o verdadeiro sentido de sociedade que o século XIX buscava.

Os sentimentos que hoje nos reúnem em volta das comemorações dos dois centenários da vinda da Família Real para o Brasil, são sentimentos que refletem nossas preocupações pela integridade da cultura luso-brasileira, objeto de campanhas de desprestigio, de tentativas de ridículo, de esforços sistemáticos no sentido de desintegrar e até mesmo desmoralizar no Brasil, as raízes  culturais  luso-brasileiras.

Este breve contacto, além do orgulho de nos fazer relembrar um passado glorioso,  salienta a cronologia da história, documentada,  daqueles que descobriram, conquistaram, defenderam e transformaram um território colonial adolescente  em Reino Unido, até mesmo com o sacrifício de suas próprias vidas e de seus descendentes.

Cito as proféticas palavras  de Dom João e de seu filho Dom Pedro:

Manifesto de Dom João, Príncipe Regente,  no dia 1º de maio de 1808,  logo após a chegada da Família Real:

A corte de Portugal levantará a sua voz

do seio do novo Império que vai criar.

            Dom Pedro I sobre o decreto de 1815 que elevou a colônia a Reino:

Vossa Majestade acaba de lançar, após uma longa navegação,

os alicerces de um estado que deve ser um dia o primeiro do mundo.

 

Que Nossa Senhora dos Navegantes sempre invocada onde quer que tenha navegado um português – mãe protetora dos homens grandes  dos grandes descobrimentos, e dos humildes pescadores açorianos contra as incertezas do mar, naufrágios e perdições de toda a sorte, continue a proteger e a abençoar a  convergência luso-brasileira,  aproximando cada vez mais essas duas pátrias entrelaçadas,  que sempre se sentiram unidas pela tradição histórica, respeito e mútua admiração.

Sobretudo, que a transmigração da Família Real, uma espécie de novo descobrimento do Brasil, seja conhecida, divulgada e estimada na verdade dos seus documentos e principalmente no significado de sua profundidade histórica. Por isso estamos aqui reunidos.

Termino com as palavras de Fernando Pessoa:

Fosse acaso,  ou vontade ou temporal     

A mão que ergue o facho que luziu.                                       

Foi Deus a alma  e o corpo Portugal                            

                        Da mão que o conduziu.

 

Discurso proferido por Nelly Martins Ferreira Candeias, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, no dia vinte e seis de março de dois mil e oito, no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

                                         

   
                      
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