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REPÚBLICA
GUARANI:
AS
RUÍNAS
DE
SÃO
MIGUEL*
Nelly Martins
Ferreira
Candeias
Presidente
do
Instituto
Histórico
e
Geográfico
de
São
Paulo e 2º. Vice-Presidente
do Clube dos
21 Irmãos Amigos, São Paulo
Introdução
No século XVI e princípios do século XVII, os padres jesuítas espanhóis
fundaram aldeias, denominadas de missões, orientadas pela religião católica,
onde os índios viviam de acordo com os princípios da cultura ocidental na
região oeste do território, hoje pertencente ao Brasil, Uruguai, Paraguai e
à Argentina. Foram criados sete povoados, que ficaram conhecidos como os
“sete povos das missões”. A etnia desses povos era variada, nela
predominando os traços dos índios guaranis. Os “Sete Povos” eram formados
pelas aldeias de São Francisco Borja (1682), São Nicolau (1687), São Luiz
Gonzaga (1687), São Miguel Arcanjo (1687), São Lourenço Mártir (1690), São
João Batista (l697) e Santo Ângelo Custódio
(1707), nas terras do Rio Grande do Sul.
São Miguel, Patrimônio da Humanidade
São Miguel, uma das mais antigas missões dos Sete Povos, foi o primeiro
lugar a ser tombado pelo IPHAN, como símbolo de agregação territorial,
unidade nacional e identidade do povo gaúcho.
Nessas
ruínas há uma igreja que contém o único exemplar de torre e frontaria
remanescentes dos povos jesuíticos e dos índios guarani que se localizavam,
nos séculos XVII e XVIII, no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Lá se encontram restos de paredes, de fundações e de pavimentação de várias
construções, casas de padres e de índios, oficinas, colégios e cemitérios,
testemunhos notáveis da primeira civilização implantada por europeus. É de
destacar as características sociais, econômicas, culturais e religiosas
inovadoras e inexistentes na época.
A construção da Igreja de
São Miguel Arcanjo teve início em 1735 e foi concluída
dez anos depois, sob a condução do arquiteto
italiano,
padre jesuíta, Grean
Battista Primoli. A igreja possuía três
naves com cinco altares dourados, cobertos de imagens de santos, em pedra e
madeira, todas elas talhadas pelos próprios índios. Construída com grandes
blocos de pedras, alguns com cerca de mil quilos, assentados uns sobre os
outros graças a um recorte tecnicamente bem calculado. Do lado direito da
frontaria da igreja há uma torre com 25 metros de altura, onde originalmente
havia cinco sinos. Um deles, pesando mil quilos, encontra-se ainda no museu
existente junto às ruínas. Acredita-se que esse e os demais sinos tenham
sido fundidos na missão de São João Batista, onde se instalou a primeira
fundição da América Latina.
Na análise de Darcy Ribeiro em As
Américas e a Civilização, as missões representam “a tentativa
mais bem sucedida da Igreja Católica para cristianizar e assegurar um
refúgio às populações indígenas, ameaçadas de absorção ou escravização pelos
diversos núcleos de descendentes de povoadores europeus e para organizá-las
em novas bases, capazes de garantir sua subsistência e seu progresso”.
Em 1983
reconheceu-se São Miguel como um dos patrimônios
da humanidade por representar um testemunho histórico do Novo Mundo, gerado
pela expansão européia do século XVII e pela ação inovadora dos jesuítas.
O Nome da Cidade
O nome São Miguel Arcanjo significa “o que está com Deus”. Chefe dos
Exércitos celestiais e padroeiro da Igreja Católica
Universal, São Miguel representa o anjo do arrependimento e da
justiça, tendo sido mencionado três vezes na Bíblia Sagrada:
No
capítulo 12 do livro de Daniel está escrito: “Ao final dos tempos aparecerá
Miguel, o grande príncipe que defende os filhos do povo de Deus. E então os
mortos ressuscitarão, os que fizeram o bem, para vida eterna, e os que
fizeram o mal para o horror eterno”.
No capítulo 12 do livro do Apocalipse lê-se: ”Houve uma grande batalha no
céu. Miguel e seus anjos lutaram contra satanás e suas legiões que foram
derrotadas, e não houve lugar para eles no céu. A antiga serpente, o diabo,
o sedutor do mundo foi atirado no precipício. Ai da terra e do mar, porque o
demônio desceu a voz com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo”. Na
carta de São Judas consta: “O Arcanjo Miguel, quando
enfrentou o diabo, disse
que
o Senhor o condene”.
Por isso São Miguel
apareceu muitas vezes atacando o dragão infernal”.
É interessante referir que o nome desse guerreiro dos exércitos celestiais
encontrava-se exatamente no local onde ocorreriam as mais sangrentas
batalhas de uma guerra do período colonial, as Guerras Guaraníticas.
As Guerras Guaraníticas
Dá-se o nome de Guerras Guaraníticas para o episódio de cruel massacre dos
nativos e de seus amigos jesuítas por soldados de Portugal e Espanha,
ocorrido nas terras do Rio Grande do Sul em decorrência das decisões
expressas no Tratado de Madri.
Durante o século XVII o movimento missionário enfrentou problemas na América
do Sul, em áreas de litígio entre colonialismo espanhol e português. No Sul
do Brasil, a população indígena dos Sete Povos das Missões foi submetida ao
Tratado de Madri (1750), um dos principais tratados de limites, assinado por
Portugal e Espanha para definir as áreas colonizadas. O Tratado de Madri
exigiu a transferência dos nativos para a margem ocidental do Rio Uruguai.
Portugal e Espanha concordaram em trocar os Sete Povos das Missões, que
ficou para Portugal, pela colônia do Sacramento que passou a pertencer à
Espanha. A decisão foi tomada por um acordo entre Portugal, Espanha e
a Igreja Católica, enviando esta um emissário
para impor a obediência aos nativos.
Os
jesuítas viram-se numa situação delicada: se apoiassem os indígenas seriam
considerados rebeldes; se não os apoiassem perderiam a confiança deles. Uns
permaneceram ao lado da coroa, mas outros, como o Padre Lourenço Balda, da
Missão de São Miguel, apoiaram os nativos, organizando a resistência desses
índios à ocupação de suas terras e à escravização.
Os indígenas missioneiros opuseram-se à decisão do Tratado de Madri por não
se considerarem bens permutáveis à disposição dos caprichos de monarcas
europeus e por acreditarem que as terras lhes
haviam sido reservadas por Deus, por intermédio de São Miguel Arcanjo.
Contrários às idéias da comissão deram início à luta por ação armada. Em
janeiro de 1756, 1700 espanhóis e 1600 portugueses, rebocando 10 canhões,
invadiram as Missões. Na Batalha de Caiboaté,
momento culminante dessa guerra, centenas de missioneiros foram massacrados,
poucas baixas se registrando nos exércitos invasores. Foi-lhes fácil
derrotar a desorganizada armada guarani, com seus canhões de bambu envoltos
em couro, mobilizada em torno de seu herói o índio Sepé.
Sepé
- Tiaraju foi um índio guarani de São Miguel das
missões, que organizou guerrilhas para impedir o avanço dos exércitos
português e espanhol na denominada Guerra Guaranítica, nos anos 1754-56. Diz
a lenda que quando Sepé
morreu, ao preparar uma emboscada aos espanhóis na República dos Guaranis em
1756, os índios olharam para o céu e viram um cavaleiro galopando sobre um
cavalo de fogo, envolto por uma luz muito intensa e com uma lança na mão.
Era Sepé indo ao encontro de Tupã.
Essa derrota provocou a morte de muitos guaranis, assim como a destruição do
trabalho de várias gerações, fazendo desaparecer
uma enorme quantidade de índios catequizados.
Co yvy oguereco
yara
Ao
atravessar o pórtico da entrada das ruínas de São Miguel das Missões lê-se o
brado heróico de Sepé-Tiaraju lá inscrito
Co yvy
oguereco yara,
República dos Guaranis, hoje um lugar onde o passado e o futuro se encontram
na memória histórica dos povos que concretizaram os sonhos e delinearam os
destinos de um continente.
O tema das Guerras Guaraníticas tem muito a ver com os objetivos e ideais
dos Clubes dos 21 Irmãos - Amigos no Brasil: integração
dos povos, fé, esperança, caridade, defesa da unidade e identidade dos
cidadãos. Foram valores como estes que transformaram
o País na grandiosa Nação que hoje nos mantêm unidos.
Nas palavras do Profeta Daniel, “ao final dos tempos aparecerá Miguel, o
grande príncipe que defende os filhos do povo Deus. E então os mortos
ressuscitarão, os que fizeram o bem, para a Vida Eterna e os que fizeram o
mal para o horror eterno”.
Diziam os índios guaranis ao tempo das Guerras Guaraníticas: “Esta terra tem
dono. Ela nos foi dada por Deus e por São Miguel”.
Assim foi e assim será.
Os que fizerem o bem serão louvados
e
os que fizerem o mal serão desprezados.
Mostra a história que a verdade sempre prevalece
e
se perpetua na memória dos povos.
E se Deus é Brasileiro, como muitas vezes se afirma,
São Miguel é certamente Gaúcho.
*Palestra proferida pela Professora Doutora Nelly Martins Ferreira Candeias,
representante do Estado do Rio Grande do Sul no Clube dos 21 Irmãos Amigos,
São
Paulo, e publicada no Boletim dessa entidade. |